domingo, 1 de março de 2026

 O canto do galo  Mc 14.26-31  

Introdução

Jesus em seu sermão aos seus discípulos no cenáculo afirmou: “Depois de ressuscitar, irei adiante de vocês para Galiléia”. Mas, o apostolo Pedro não prestou atenção nesta profecia da ressureição. Tudo o que Pedro ouviu foi: “Voces todos me abandonarão”. A palavra é desertar e foi tomada da palavra grega “tropeçar”.

Ou seja, “todos vocês vão se voltar contra mim, deixar-me e abandonar-me...todos vocês tropeçarão”. Mas o apostolo Pedro estava inquieto diante dessa frase de Jesus e num gesto de autoconfiança, disse: “Todos os outros apóstolos podem abandona-lo, mas eu certamente nunca irei abandoná-lo”.

“Ah, Pedro, mas você vai”, disse Jesus com um suspiro. A seguir ele acrescentou um comentário que deve ter doido: “Asseguro-lhe que ainda hoje, esta noite, antes que duas vezes cante o galo, três vezes você me negará”. Percebam que Jesus é enfático: “Pedro o negará; Pedro o negará naquela mesma noite; e Pedro o negará por três vezes.

Sabemos que Pedro tinha um temperamento sanguíneo, ou seja, era impetuoso, falava antes de pensar. As vezes, tinha a tendencia de exagerar e de se vangloriar; outras vezes agiu cheio de fé, quando Jesus perguntou sobre sua identidade messiânica e Pedro respondeu: “Tú és o Cristo, o filho do Deus vivo”. Mas, aui, ele está cheio de autoconfiança, ou seja, sua confiança não vinha do alto, mas vinha de si mesmo.

1)     O canto do galo

E Jesus lhe disse: “esta mesma noite você vai me negar. Não uma, mas três vezes, antes que o galo cante duas vezes”. O canto do galo não se referia à voz de uma ave, mas sim, nessa hora ocorria a troca da guarda romana no Castelo de Antonia; e o sinal para indicar essa troca era um toque de trombeta. A palavra em latim para designar este toque da trombeta é gallicinium, que significa canto do galo.

Os romanos dividiam a noite em “vigílias”. A primeira vigília da noite começava às 18 horas e ia até às 21 00; a segunda vigília ia das 21 00 até à meia-noite; a terceira vigília ia da meia noite até às 3 00 da manhã; e a quarta vigília, das 3 00 da manhã até às 6 horas da manhã. Jesus advertiu sobre sua vinda: “Portanto, vigiem, porque vocês não sabem quando o dono da casa voltará; se à tarde, à meia-noite, ao canto do galo ou ao amanhecer. Se ele vier de repente, que não os encontre dormindo! O que lhes digo, digo a todos: Vigiem!” (Mc 13.35-37).

Quando Jesus disse: “antes que o galo cante duas vezes”, ele estava se referindo ao fim da terceira vigília. Ou seja, Jesus estava falando para Pedro: “Esta noite, antes de você ouvir aqueles dois toques de trombeta, você terá me negado três vezes”.

Em seguida, Jesus foi para o jardim do Getsemani, orar buscar a face do Pai. Pedro, Joao e Tiago estavam juntos e presenciaram a agonia de Jesus naquele momento, seu suor transformou-se em sangue. Por três vezes, Jesus orou insistentemente ao Pai. Quando voltou aonde estavam os discípulos, todos estavam dormindo, cansados. Ele olhou para Simão Pedro e disse: “...voce está dormindo? Não pode vigiar nem por uma hora?” (Mc 14,37).

Ele escolheu Pedro. Por quê? Porque Pedro foi o primeiro que, naquela mesma noite, tinha declarado tão ousadamente, “mesmo que todos falhem, eu não falharei”. E agora ele estava roncando, fraco demais para vigiar ou ficar acordado.  Em seguida, quando Judas chegou com o destacamento militar para prender Jesus, diz Marcos: “então todos o abandonaram e fugiram” (Mc 14.50).

Todos fugiram, todos desertaram, todos abandonarão Jesus. Um a um eles foram fugindo – fugindo para a escuridão daquela noite de medo, para o anonimato. “Todos os abandonaram e fugiram”. Eles se dispersaram como ratos assustados.

2)     A negação de Pedro

Levaram Jesus ao sumo sacerdote; e então se reuniram todos os chefes dos sacerdotes, os lideres religiosos e os mestres da lei. Pedro o seguiu de longe até o pátio do sumo sacerdote. Sentando-se ali com os guardas, esquentava junto ao fogo” (Mc.14.53,54).

Pedro acompanhou Jesus de longe, seguindo a multidão até o pátio do sumo sacerdote. Ali, os soldados estavam reunidos em volta de um pequeno fogo; cuidadosamente, envolto numa capa. Pedro aproximou-se das brasas para se aquecer.  Pedro estava com medo, mas também estava curioso; sua lealdade estava em conflito com seu medo. Então, ele seguiu Jesus à distância...

Enquanto isso, Jesus estava sendo julgado pelos religiosos. Estava sendo torturado, humilhado, cuspido, amaldiçoado e falsamente acusado, mas permaneceu ali em silencio, sangrando. Zombaram de Jesus, vendaram seus olhos e esbofeteavam e diziam: “Diga-nos quem bateu em você”. Escondido nas sombras, observando tudo, estava Pedro, perseguido pela lembranças de suas próprias palavras.

“Então Pedro embaixo, no pátio, uma das criadas do sumo sacerdote passou por ali. Vendo Pedro aquecer-se, olhou bem para ele e disse: Voce também estava com Jesus, o Nazareno” (Mc 14.66). Sim, ela disse, eu te conheço, você é um dos seguidores do Nazareno. Mas, ele respondeu: “Não conheço, nem sei do que você está falando”. E saiu para outro lugar...

Logo, Pedro se retirou para uma distância mais segura, logo se afastou para mais longe, a fim de acalmar toda suspeita, mas a criada era insistente: “Quando a criada o viu lá, disse novamente aos que estavam por perto: Esse ai é um deles”. De novo ele negou (Mc 14.69-70).

Desta vez, a criada se dirigiu à multidão que estava por perto, dizendo: “Escutem, este é um deles”. E, mais uma vez Pedro negou abertamente qualquer associação com Jesus de Nazaré.  “Certamente você é um deles, Voce é galileu” (Mc 14.70).

Como assim? Galileu! “...o seu modo de falar o denúncia”. Alguns galileus tinha dificuldade para pronunciar algumas palavras do dialeto em Jerusalém naquela época. Os galileus eram considerados ignorantes e incultos, enquanto os habitantes de Jerusalém eram mais cultos, falavam mais de um idioma. 

Pedro em desesperdo, começou a praguejar: “Ele começou a se amaldiçoar e a jurar: Não conheço o homem de quem vocês estão falando”. E logo o galo cantou pela segunda vez. Então Pedro se lembrou da palavra que Jesus lhe tinha dito: antes que duas vezes cante o galo, você me negará três vezes. E se pôs a chorar” (Mc 14.71,72).

O que atormentou o apostolo Pedro foi: primeiro, a trombeta anunciou o fim da terceira vigília, e em seguida tocou novamente. O canto do galo, duas vezes na orelha de Pedro e havia negado Jesus por três vezes!

Conclusão

O evangelista Lucas escreve que na terceira negação de Pedro, quando o galo cantou, Jesus estava saindo do Sinédrio acompanhado pelos soldados e “O Senhor olhou diretamente para Pedro...” (Lc 22.60.61). Quando Pedro viu o olhar de Jesus, logo se lembrou de suas palavras; “Asseguro-lhe que hoje, esta  noite, antes que duas vezes cante o galo, três vezes você me negará” Que humilhação!

Como teria sido aquele olhar? Seria um olhar de surpresa? Não, Jesus havia afirmado que Pedro iria negá-lo. Seria um olhar de ira e rejeição?  Não, o amor de Deus por nós é gracioso! Mas, um olhar cheio de compaixão, cheio de graça, cheio de misericórdia. Um olhar de recomeço, um olhar de segunda oportunidade, um olhar de uma segunda unção. Uma profecia: a gloria da segunda casa será maior do que a da primeira!