O canto do galo Mc 14.26-31
Introdução
Jesus em seu sermão aos seus discípulos no cenáculo afirmou: “Depois
de ressuscitar, irei adiante de vocês para Galiléia”. Mas, o apostolo Pedro não
prestou atenção nesta profecia da ressureição. Tudo o que Pedro ouviu foi: “Voces
todos me abandonarão”. A palavra é desertar e foi tomada da palavra grega “tropeçar”.
Ou seja, “todos vocês vão se voltar contra mim, deixar-me e abandonar-me...todos
vocês tropeçarão”. Mas o apostolo Pedro estava inquieto diante dessa frase de
Jesus e num gesto de autoconfiança, disse: “Todos os outros apóstolos podem
abandona-lo, mas eu certamente nunca irei abandoná-lo”.
“Ah, Pedro, mas você vai”, disse Jesus com um suspiro. A
seguir ele acrescentou um comentário que deve ter doido: “Asseguro-lhe que
ainda hoje, esta noite, antes que duas vezes cante o galo, três vezes você me
negará”. Percebam que Jesus é enfático: “Pedro o negará; Pedro o negará naquela
mesma noite; e Pedro o negará por três vezes.
Sabemos que Pedro tinha um temperamento sanguíneo, ou seja,
era impetuoso, falava antes de pensar. As vezes, tinha a tendencia de exagerar
e de se vangloriar; outras vezes agiu cheio de fé, quando Jesus perguntou sobre
sua identidade messiânica e Pedro respondeu: “Tú és o Cristo, o filho do Deus
vivo”. Mas, aui, ele está cheio de autoconfiança, ou seja, sua confiança não
vinha do alto, mas vinha de si mesmo.
1)
O
canto do galo
E Jesus lhe disse: “esta mesma noite você vai me negar. Não
uma, mas três vezes, antes que o galo cante duas vezes”. O canto do galo não se
referia à voz de uma ave, mas sim, nessa hora ocorria a troca da guarda romana
no Castelo de Antonia; e o sinal para indicar essa troca era um toque de
trombeta. A palavra em latim para designar este toque da trombeta é
gallicinium, que significa canto do galo.
Os romanos dividiam a noite em “vigílias”. A primeira vigília
da noite começava às 18 horas e ia até às 21 00; a segunda vigília ia das 21 00
até à meia-noite; a terceira vigília ia da meia noite até às 3 00 da manhã; e a
quarta vigília, das 3 00 da manhã até às 6 horas da manhã. Jesus advertiu sobre
sua vinda: “Portanto, vigiem, porque vocês não sabem quando o dono da casa
voltará; se à tarde, à meia-noite, ao canto do galo ou ao amanhecer. Se ele
vier de repente, que não os encontre dormindo! O que lhes digo, digo a todos:
Vigiem!” (Mc 13.35-37).
Quando Jesus disse: “antes
que o galo cante duas vezes”, ele estava se referindo ao fim da terceira vigília.
Ou seja, Jesus estava falando para Pedro: “Esta noite, antes de você ouvir
aqueles dois toques de trombeta, você terá me negado três vezes”.
Em seguida, Jesus foi para o
jardim do Getsemani, orar buscar a face do Pai. Pedro, Joao e Tiago estavam juntos
e presenciaram a agonia de Jesus naquele momento, seu suor transformou-se em
sangue. Por três vezes, Jesus orou insistentemente ao Pai. Quando voltou aonde
estavam os discípulos, todos estavam dormindo, cansados. Ele olhou para Simão
Pedro e disse: “...voce está dormindo? Não pode vigiar nem por uma hora?” (Mc
14,37).
Ele escolheu Pedro. Por quê?
Porque Pedro foi o primeiro que, naquela mesma noite, tinha declarado tão ousadamente,
“mesmo que todos falhem, eu não falharei”. E agora ele estava roncando, fraco
demais para vigiar ou ficar acordado. Em
seguida, quando Judas chegou com o destacamento militar para prender Jesus, diz
Marcos: “então todos o abandonaram e fugiram” (Mc 14.50).
Todos fugiram, todos desertaram,
todos abandonarão Jesus. Um a um eles foram fugindo – fugindo para a escuridão
daquela noite de medo, para o anonimato. “Todos os abandonaram e fugiram”. Eles
se dispersaram como ratos assustados.
2)
A negação de Pedro
“Levaram Jesus ao sumo
sacerdote; e então se reuniram todos os chefes dos sacerdotes, os lideres
religiosos e os mestres da lei. Pedro o seguiu de longe até o pátio do sumo
sacerdote. Sentando-se ali com os guardas, esquentava junto ao fogo” (Mc.14.53,54).
Pedro acompanhou Jesus de
longe, seguindo a multidão até o pátio do sumo sacerdote. Ali, os soldados
estavam reunidos em volta de um pequeno fogo; cuidadosamente, envolto numa capa.
Pedro aproximou-se das brasas para se aquecer. Pedro estava com medo, mas também estava
curioso; sua lealdade estava em conflito com seu medo. Então, ele seguiu Jesus
à distância...
Enquanto isso, Jesus estava
sendo julgado pelos religiosos. Estava sendo torturado, humilhado, cuspido,
amaldiçoado e falsamente acusado, mas permaneceu ali em silencio, sangrando. Zombaram
de Jesus, vendaram seus olhos e esbofeteavam e diziam: “Diga-nos quem bateu em você”.
Escondido nas sombras, observando tudo, estava Pedro, perseguido pela
lembranças de suas próprias palavras.
“Então Pedro embaixo, no pátio,
uma das criadas do sumo sacerdote passou por ali. Vendo Pedro aquecer-se, olhou
bem para ele e disse: Voce também estava com Jesus, o Nazareno” (Mc
14.66). Sim, ela disse, eu te conheço, você é um dos seguidores do Nazareno.
Mas, ele respondeu: “Não conheço, nem sei do que você está falando”. E
saiu para outro lugar...
Logo, Pedro se retirou para
uma distância mais segura, logo se afastou para mais longe, a fim de acalmar
toda suspeita, mas a criada era insistente: “Quando a criada o viu lá, disse
novamente aos que estavam por perto: Esse ai é um deles”. De novo ele negou (Mc
14.69-70).
Desta vez, a criada se dirigiu
à multidão que estava por perto, dizendo: “Escutem, este é um deles”. E, mais
uma vez Pedro negou abertamente qualquer associação com Jesus de Nazaré. “Certamente você é um deles, Voce é galileu”
(Mc 14.70).
Como assim? Galileu! “...o
seu modo de falar o denúncia”. Alguns galileus tinha dificuldade para
pronunciar algumas palavras do dialeto em Jerusalém naquela época. Os galileus
eram considerados ignorantes e incultos, enquanto os habitantes de Jerusalém
eram mais cultos, falavam mais de um idioma.
Pedro em desesperdo, começou
a praguejar: “Ele começou a se amaldiçoar e a jurar: Não conheço o homem de
quem vocês estão falando”. E logo o galo cantou pela segunda vez. Então
Pedro se lembrou da palavra que Jesus lhe tinha dito: antes que duas vezes cante
o galo, você me negará três vezes. E se pôs a chorar” (Mc 14.71,72).
O que atormentou o apostolo
Pedro foi: primeiro, a trombeta anunciou o fim da terceira vigília, e em
seguida tocou novamente. O canto do galo, duas vezes na orelha de Pedro e havia
negado Jesus por três vezes!
Conclusão
O evangelista Lucas escreve que
na terceira negação de Pedro, quando o galo cantou, Jesus estava saindo do Sinédrio
acompanhado pelos soldados e “O Senhor olhou diretamente para Pedro...” (Lc
22.60.61). Quando Pedro viu o olhar de Jesus, logo se lembrou de suas palavras;
“Asseguro-lhe que hoje, esta noite,
antes que duas vezes cante o galo, três vezes você me negará” Que humilhação!
Como teria sido aquele olhar?
Seria um olhar de surpresa? Não, Jesus havia afirmado que Pedro iria negá-lo.
Seria um olhar de ira e rejeição? Não, o
amor de Deus por nós é gracioso! Mas, um olhar cheio de compaixão, cheio de
graça, cheio de misericórdia. Um olhar de recomeço, um olhar de segunda
oportunidade, um olhar de uma segunda unção. Uma profecia: a gloria da segunda
casa será maior do que a da primeira!






































