terça-feira, 10 de março de 2026

 Carta à igreja  - Ap 1.4-8 

Introdução

A igreja foi estabelecida por Jesus. Igreja é assembleia, é ekklesia, ajuntamento de pessoa para adorar a Deus. Não tem igreja de uma pessoa, não! Quando nos individualizamos em nosso egoísmo, em nosso confinamento, estamos nos separando de Deus e do próximo. O pecado fragmenta, divide, separa; mas o evangelho restaura, une e insere em uma comunidade. Uma das principais mudanças que o evangelho opera é gramatical: nós em lugar do eu, nosso em vez do meu. 

“Não é bom que o homem esteja só” (Gn 2.18); “...tornarei a sua descendia tão numerosa como o pó da terra” (Gn 12); “...não deixemos de reunir-nos como igreja, como é costume de alguns” (Hb 10.25). Jesus ensinou a oração: “...vocês orem assim: Pai Nosso que está nos céus” (Mt 7) e mais: “Ame o seu próximo como a si mesmo”.

Quando João se voltou na direção da voz de trombeta que chamava a sua atenção, a primeira coisa que o apostolo viu foram os “sete candelabros de ouro” (Ap 1.12), que “são as sete igrejas” da Asia Menor. Então, no meio dos candelabros, ele viu “alguém semelhante a um filho de homem”. É impossível ter Cristo sem a igreja! 

“Escreva às sete igrejas”. Seria mais de nosso agrado ir diretamente da visão maravilhosa de Cristo (Ap 1.12-18), para o êxtase glorioso do céu (Ap 4 e 5), ou então para as grandes vitoriosas batalhas contra o dragão, a besta que surge do mar, ou a besta que surge da terra (Ap 12-14). Mas é impossível. É necessário lidar com a igreja; o caminho do céu e às batalhas contra o pecado passa pela igreja. Não apenas uma igreja, mas sete!

1)     O que é igreja?

Igreja é a reunião do povo de Deus, uma comunidade de crentes, um ajuntamento de pessoas, sim, de pessoas comuns em uma região geográfica especifica. As comunidades não são citadas em termos de caráter, piedade ou heroísmo, mas apenas pela localização: Igreja de Éfeso, igreja de Esmirna, igreja de Pérgamo, igreja de Tiatira, igreja de Filadélfia, igreja Assembleia de Deus Betesda; igreja batista, etc. 

Os cristãos ouviram a voz de Deus: “Desperta, ó tu que dormes, levante-te dentre os mortos, e Cristo te iluminarás” (Ef 5.14). A igreja foi criada por Deus, a igreja tem relacionamento com Jesus Cristo. A igreja recebeu o poder do Espírito Santo, além disso, tem recebido dons espirituais para atuar no corpo de Cristo. Uma igreja somente existe em relação ao Espirito Santo, fora de Deus, ela teria uma localização geográfica, mas seria destituída de identidade.

Cada igreja tem a sua identidade. A igreja de Éfeso, ele diz: “...daquele que tem as sete estrelas em sua mão direita e anda entre os sete candelabros de ouro”; a igreja de Esmirna, ele diz: “...daquele que é o primeiro e o último, que morreu e tornou a viver”; a igreja de Pérgamo, ele diz: “...daquele que tem a espada afiada de dois gumes...”; a igreja de Tiatira, ele diz: “...daquele cujos olhos são como chama de fogo e os pés como bronze reluzente...”; a igreja de Sardes, ele diz: “...daquele que tem os sete espíritos de Deus e as sete estrelas...”.

A igreja de Filadelfia, ele diz: “...daquele que é santo e verdadeiro, que tem a chave de Davi. O que ele abre ninguém pode fechar, e o que ele fecha ninguém pode abrir”. E, a igreja de Laodiceia, ele diz: “...Amém, a testemunha fiel e verdadeira, o soberano da criação de Deus”. Logo, toda igreja tem sua identidade, não existe igreja fora de Cristo!

Cada igreja recebe uma parte: só um elemento da visão. Nenhuma igreja exibe a perfeição de Cristo. É impossível olhar para uma congregação e encontrar nela toda representação de Cristo, embora com toda certeza possamos ser levados a essa totalidade se ouvirmos o que “o Espírito diz às igrejas” e respondermos em adoração.

“Aquele que tem ouvidos ouça o que o Espirito diz às igrejas”. Ouvir é a tarefa comum na igreja. As congregações são postos de escuta. Ouvir é muito mais do que uma função acústica, ouvir é um ato espiritual. O profeta Isaias, diz: “...todas as manhãs, ele faz com que eu tenha vontade de ouvir com atenção o que ele vai dizer” (Is 50.5). Qual é a qualidade do meu ouvir? 1) estarão os meus ouvidos endurecidos, tampados, insensíveis à sua voz? 2) será minha atenção apenas superficial, como um solo rochoso em que tudo brota mas nada firma raízes; 3) tenho um ouvido de que não discerne nada, aceita tudo o que ouve e raramente fica com a verdade?; 4) ou serão eles como o solo bom, que recebe a Palavra de Deus prontamente. 

2)     Deus fala

O primeiro elemento da orientação espiritual é uma afirmação precisa. Cada mensagem, cada carta às igrejas do apocalipse com o Senhor dizendo: “...conheço” (oida), eu discirno, eu vejo tudo, eu sei de tudo, nada pode escapar dos meus olhos, tudo está patente diante de mim. É um conhecimento preciso, do que significa viver como um povo de Deus naquele lugar.

As igrejas recebem elogios, palavras de estímulo. A igreja de Éfeso fala do seu “trabalho árduo e incansável e atento. A igreja de Esmirna fala do seu sofrimento corajoso. A igreja de Pérgamo fala da “ousadia do seu testemunho”. A igreja de Tiatira fala do “crescimento e desenvolvimento do discipulado”. E, por fim, a igreja de Filadélfia fala de sua bravura e constância. Somente duas igrejas não recebem palavras de estímulos, ou seja, a igreja de Sardes e a igreja de Laodiceia.

Mas, tem disciplina, tem correção. Ele diz: “...tenho contra você”. Nenhuma igreja existiu em estado puro. É composta de pecadores. A igreja atrai pessoas que apreciam um ambiente santo, mas que não tem o menor interesse em desenvolver a santidade pessoal. Assim, a igreja precisa passar constantemente por renovações. 

A igreja de Éfeso “abandonou o primeiro amor” (Ap 2.4); a igreja de Pérgamo era “indiferente aos ensinamentos heréticos”, sim, estavam tolerando a doutrina de Balaão e a doutrina dos nicolaítas. A igreja de Tiatira “estava tolerando a imoralidade sexual”, estava sendo conivente com o espírito de Jezabel em seu meio; na igreja havia três tipos de pessoas: os fiéis, os que vivem na pratica do pecado e os tolerantes. Na igreja de Sardes havia apatia espiritual “tens fama de estar vivo, mas de fato, estás morto”. E, por fim, a igreja de Laodiceia, estava permitindo que a riqueza e o luxo substituíssem a vida no Espirito.

Portanto, a igreja é o lugar onde vamos descobrir o que estamos fazendo certo – lugar de afirmação, de elogio, arrazoamento. Mas a igreja também é o lugar onde buscamos saber em que estamos errando, lugar de correção, lugar de disciplina. E somos ensinados a nos arrepender dos nossos pecados.

Somos coagidos a nos arrepender. Ele diz “repreendo e disciplino (paideia) aqueles que eu amo” (Hb 12.4-8). O treinamento acontece em sete áreas: somos ensinados a voltar ao primeiro amor; ensinados a sofrer; ensinados a falar a verdade; ensinados a ser santos; ensinados a ser autêntico; ensinados a cumprir a missão e adorar a Deus.

Conclusão

Por fim, temos promessa:  a vida eterna. Mas é apresentada sob imagens diferentes: a igreja de Éfeso, arvore da vida; a igreja de Esmirna, coroa da vida; a igreja de Pergamo, pedra branca; a igreja de Tiatira, estrela da manhã; a igreja de Sardes, vestes brancas; a igreja de Filadélfia, coluna do templo e a igreja de Laodiceia, comer e reinar com Cristo. 



sábado, 7 de março de 2026

 O pecado não se apartará de sua casa  

 Estou meditando em 1 Samuel que narra a saga do rei Davi, rei de Israel. Os capítulos 1 até o capitulo 10 fala do começo do seu reinado, começo de grandes vitórias e conquistas, principalmente diante do seu maior inimigo – os filisteus. A ideia desse dez capítulos inicias é  ver uma flecha subindo, bem alto, como uma flecha lançada por um soldado...subindo muito alto...

No entanto, todavia, quando chegamos no capitulo 11 de 1 Samuel, fala que era primavera e os reis costumavam ir para as guerras. Mas, Davi, ficou em seu palácio, seus exércitos lutando bravamente contra os amonitas e o rei em seu palácio! Em um desses dias que estava em casa sem fazer nada, ocioso, escutou de cima do seu palácio um barulho de água, quando aproximou-se viu uma mulher tomando banho, seu nome era Bate-Seba, ou seja, filha de Seba e era casada com Urias, que estava na guerra como soldado do exercito de Davi.

Davi, tinha todas essas informações, mas desejou aquela mulher. Logo, mandou busca-la e teve relação sexual com ela; depois de alguns dias, ela mandou um recado ao rei Davi: estou grávida! Diante dessa noticia o rei Davi ficou sem saber o que fazer, e agora? Então, mandou buscar seu marido no campo de batalha, a ideia era que Urias ficasse com sua esposa e deitasse com ela para que pensasse que o filho era dele. Mas, o marido, como bom soldado não foi para sua casa, enquanto seus irmãos estavam no campo de batalha, lutavam arduamente pelo rei e por Israel.

Davi não conseguiu convencê-lo e tomou a pior decisão de sua vida: enviou uma carta ao general Joabe e mandou que colocasse Urias na linha de frente do combate, na infantaria, na cara da guerra, para que fosse morto. E, assim, sucedeu, Urias morreu no primeiro confronto no campo de batalha, do jeito que Davi pensou.

Agora, com Urias morto, Davi, mandou buscar Bate-Seba e a fez mais uma de suas esposas. Mas, Deus, mandou Natã que lhe contou a estória de um homem que possuía uma simples ovelha e de outro homem que possuía muitas ovelhas. Um dia, chegou um visitante na casa desse homem que possuía muitas ovelhas, ao invés de pegar uma de suas ovelhas, foi buscar a única ovelha que possuía seu vizinho. Quando Davi, ouviu essa história, ficou demasiadamente irritado e disse: que quem cometesse tal pecado teria que restituir quatro vezes mais.

Com essa estória, Natã confrontou Davi e falou do seu pecado. Davi, diante, do fato, diante da verdade, diante do confronto, disse: “Eu pequei”. Mas, Natã, profetizou: “Agora, pois, não se apartará jamais a espada de sua casa”. Sim, a consequencia do pecado de Davi seria de acordo com as suas palavras “quatro vezes mais”.

Primeiro, foi a morte da criança que ele teve com Bate-Seba; segundo, foi a morte de Amon, seu filho mais velho, que abusou de sua meia-irmã Tamar e morreu pelas mãos de Absalão. Terceiro, a morte de Absalão, por ter se levantado contra seu pai. E, por fim, a morte de seu filho Adonias, por Salomão.

Sim, o pecado de Davi, lhe perseguiu, não se apartou de sua casa, conforme a profecia de Natã!

 

terça-feira, 3 de março de 2026

 A patologia de Jonas Jn 4   

Introdução

Jonas “fugiu da presença de Deus”, porque não queria pregar em Nínive; ele não gostava do povo dessa cidade, aliás, ele odiava os ninivitas! Jonas foge de Deus para Társis, para o fim do mundo, aonde o vento faz a curva. Mas como fugir de Deus? Deus vai até Jonas através de uma tempestade “O Senhor tem o seu caminho na tormenta e na tempestade...” (Na 1.3). Jonas fica na barriga dum peixe por três dias, arrepende-se do seu pecado e aceita o comissionamento de Deus. Aceita a missão que Deus lhe deu. 

Ele prega na cidade de Ninive uma única mensagem: “Ainda quarenta dias, e Nínive será destruída” (Jn 3.4). Toda cidade se converteu “do maior até o menor”. O rei da Assíria “desceu do trono, tirou as vestes reais, vestiu-se de pano de saco e sentou-se sobre um monte de cinzas” (Jn 3.6). Houve um arrependimento de toda população, logo, Deus suspendeu o julgamento e não subverteu a cidade de Nínive.

Isso nos levaria a esperar que o livro terminasse no capitulo 3 com uma nota de triunfo; como os setenta discípulos comissionados por Jesus e a volta triunfante, “cheios de alegria” , diante do que Deus realizara (Lc 10.17-20). Mas, “o que Deus fez foi terrível para Jonas que ele ardeu em fúria”, ou “isso foi extremamente maléfico para Jonas”. “Tudo isso deixou Jonas aborrecido e muito irado” (NVT).

1)     Causa

No versículo 2, ele diz: “Ah! Senhor! Não foi isso que eu disse, estando ainda na minha terra” (ARC). Ou seja, eu sabia que tu poderias fazer algo assim. Essas pessoas são más e somente se arrependeram porque ficaram com medo. Elas não se converterão, não se arrependerão, verdadeiramente. E o mais difícil, Senhor, é que por causa dessa “pseudo” mudança receberam misericórdia, receberam perdão. Não vai mais subverter Nínive? É bom que seja um Deus de misericórdia, mas desta vez foste longe demais!  

O nome Yahweh traduzido por “Senhor”, não aparece desde o capitulo 2, mas agora literalmente clama: “Ah! YAWEH!”. É o mesmo nome que ele se revelou a Moisés no Sinai: “Eu Sou o que Sou” (Ex 3.14), ou, “YHWH” o que significa que Ele é autoexistente, é o criador e sustentador de todas as coisas, Ele é imutável em seu caráter e, Ele é Eterno. É o Deus do pacto, da aliança e, Jonas tinha isso em mente. É como se Jonas estivesse indagando: “Como podes cumprir suas promessas de preservar seu povo e, ao mesmo tempo, mostrar misericórdia aos inimigos de seu povo”. 

 E mais: quando Jonas diz que quer morrer “...tira-me a vida, porque é melhor morrer do que viver” (Jn 4.3). Deus, com extraordinária gentileza, repreende-o por sua raiva desmedida: “É razoável esse seu ressentimento?” (Jn 4.3). Logo, a coisa está num nível mais profundo do coração, está entranhado! Jonas era um profeta, tinha um relacionamento com Deus, mas havia algo que ele valorizava mais do que o Senhor. Sua fúria explosiva evidencia que estava disposto a descartar seu relacionamento com Deus, se não conseguir o que tanto deseja. 

Quando a pessoa diz: “Eu não vou te servir, Deus, se tu não me deres tal coisa, se eu não conseguir o que tanto desejo”. Como aquela criança mimada no mercado que rola pelo chão até conseguir o que quer. Então, esse é o seu ponto mais importante, seu maior amor, seu verdadeiro “deus”, a coisa que mais confia e descansa. Jesus mostrou o que  o chamado para o discípulo era radical: “Segue-me. Ele, porém, respondeu: permite-me ir primeiro sepultar meu pai. Mas Jesus insistiu: deixa aos mortos o sepultar os seus próprios mortos. Tu, porém, vai e pregar o reino de Deus” (Lc 9.59-60).

Quando começar a repreender o Senhor, Jonas cita para Deus as palavras do próprio Deus. Elas estão em Êxodo 34.6,7: “Yahweh, Yahweh, Deus compassivo e misericordioso, longânimo, cheio de amor, paciente e fiel; que persevera em seu amor dedicado a milhares, e perdoa a malignidade, a rebelião e ao pecado”. No entanto, o profeta fez uma leitura seletiva do texto, ignorando a ultima parte do versículo 7, na qual está escrito que “ao culpado não tem por inocente”. 

É uma mensagem simplista, de um Deus que ama a todos sem julgar o mau. Ele usa o texto para justificar sua indignação desmedida, sua raiva e amargura desproporcionais. Sempre que lemos a Bíblia para nos sentir justos e sábios aos nossos próprios olhos, estamos usando a Bíblia para nos fazer de tolos ou coisa pior. Somente quando lemos a Bíblia corretamente, quando ela fala conosco, nos humilha, nos exorta, aponta nosso pecado e nos encoraja com amor e graça.

2)     Encontrando a cura

Jonas saiu da cidade, e assentou-se ao oriente da cidade, e ali fez uma cabana, e se assentou debaixo dela, à sombra, até ver o que aconteceria à cidade” (Jn 4.5). Jonas não vai embora, decide ficar perto da cidade na parte oriental, faz um abrigo temporário para si “queria ver o que aconteceria com a cidade”. Jonas estava com calor, enfadado, então para deixa-lo mais confortável “fez o Senhor nascer uma aboboreira...” (v.6). A tradição afirma que Jonas era calvo, a intenção fazer “sombra sobre a sua cabeça”.  E diz o texto: “Jonas ficou bastante alegre por causa da planta” (v.6). 


“Mas Deus enviou um bicho, no dia seguinte, ao subir da alva, o qual feriu a aboboreira, e esta se secou”. Essa aboboreira só durou um dia de vida, porque no dia seguinte: “Deus enviou um bicho...feriu a aboboreira, e esta se secou” (v.7). Jonas ficou, novamente, desolado, ficou zangado quando Deus enviou um verme para roer e murchar o é de aboboreira. Jonas murmura, questiona: “É inacreditável, além de tudo o que aconteceu, mais isso? Por que Deus não pode me dar um tempo? A ira de Jonas ganha força junto ao seu desespero: “Estou zangado e abatido o suficiente para morrer”, ou “Melhor é morrer do que viver (v.8)” (ARC)

Mas Deus responde: “Tu tiveste compaixão da aboboreira” (v.10); em outras palavras, Deus está dizendo: “Você chorou por ela, Jonas. Seu coração se apegou a planta, se alegrou. Então, em essência é: você chora por uma planta, mas eu tenho compaixão de pessoas”. Sim, Deus chora pela maldade e perdição de Nínive. Deus estava preocupado com as pessoas da cidade; estava preocupado com o arrependimento dessas pessoas. Mas, Jonas, estava preocupado com o seu bem- estar, com a sombrinha da aboboreira! 

Quem se dedica seu amor a alguém só consegue ser feliz se esse alguém for feliz. A aflição dessa pessoa se torna sua aflição. Genesis 6.6 diz que quando Deus viu a maldade que reinava na terra “seu coração se encheu de dor”. Deus olhando para Israel, que se afunda no mal e no pecado, e falando que o coração dele se comove por dentro dele: “Como posso desistir de você, Efraim? Como posso te entregar nas mãos dos outros, Israel? Meu coração se comove dentro de mim; a minha compaixão se torna cálida e suave” (Os 11.8).

Conclusão

A compaixão de Deus não é somente um conceito, mas, sim, uma realidade, é o sentimento profundo de Deus pelos pecadores. É intrigante o fato de que ele fala desses pagãos violentos e pecadores como pessoas “que não sabem diferenciar a mão direita da esquerda” (v.11). O que é isso? Eles estão espiritualmente cegos, perderam-se no caminho e não tem a menor ideia da fonte de suas dificuldades e o que fazer a respeito delas.

Há muitas pessoas que não tem ideia alguma do porque da vida, ou o sentido da vida, tampouco não consegue discernir entre o certo e o errado.

Deus está afirmando a Jonas: Estou chorando e lamentando por esta cidade – por que você não está? Se é meu profeta porque não tem a mesma compaixão que eu? Jonas não chorou pela cidade, mas Jesus, o verdadeiro profeta, sim.

Quando Jesus viu a cidade de Jerusalém chorou sobre ela e disse: “Se você, mesmo você, apenas soubesse neste dia o que lhe traria a paz – mas agora isso está oculto aos seus olhos... porque você não reconheceu o tempo da vinda de Deus para você” (lc 19). “Jerusalém, Jerusalém...quantas vezes desejei reunir seus filhos, como uma galinha ajunta seus filhotes sob as asas e vocês não estavam dispostos” (Lc 13.34). 



 

domingo, 1 de março de 2026

 O canto do galo  Mc 14.26-31  

Introdução

Jesus em seu sermão aos seus discípulos no cenáculo afirmou: “Depois de ressuscitar, irei adiante de vocês para Galiléia”. Mas, o apostolo Pedro não prestou atenção nesta profecia da ressureição. Tudo o que Pedro ouviu foi: “Voces todos me abandonarão”. A palavra é desertar e foi tomada da palavra grega “tropeçar”.

Ou seja, “todos vocês vão se voltar contra mim, deixar-me e abandonar-me...todos vocês tropeçarão”. Mas o apostolo Pedro estava inquieto diante dessa frase de Jesus e num gesto de autoconfiança, disse: “Todos os outros apóstolos podem abandona-lo, mas eu certamente nunca irei abandoná-lo”.

“Ah, Pedro, mas você vai”, disse Jesus com um suspiro. A seguir ele acrescentou um comentário que deve ter doido: “Asseguro-lhe que ainda hoje, esta noite, antes que duas vezes cante o galo, três vezes você me negará”. Percebam que Jesus é enfático: “Pedro o negará; Pedro o negará naquela mesma noite; e Pedro o negará por três vezes.

Sabemos que Pedro tinha um temperamento sanguíneo, ou seja, era impetuoso, falava antes de pensar. As vezes, tinha a tendencia de exagerar e de se vangloriar; outras vezes agiu cheio de fé, quando Jesus perguntou sobre sua identidade messiânica e Pedro respondeu: “Tú és o Cristo, o filho do Deus vivo”. Mas, aui, ele está cheio de autoconfiança, ou seja, sua confiança não vinha do alto, mas vinha de si mesmo.

1)     O canto do galo

E Jesus lhe disse: “esta mesma noite você vai me negar. Não uma, mas três vezes, antes que o galo cante duas vezes”. O canto do galo não se referia à voz de uma ave, mas sim, nessa hora ocorria a troca da guarda romana no Castelo de Antonia; e o sinal para indicar essa troca era um toque de trombeta. A palavra em latim para designar este toque da trombeta é gallicinium, que significa canto do galo.

Os romanos dividiam a noite em “vigílias”. A primeira vigília da noite começava às 18 horas e ia até às 21 00; a segunda vigília ia das 21 00 até à meia-noite; a terceira vigília ia da meia noite até às 3 00 da manhã; e a quarta vigília, das 3 00 da manhã até às 6 horas da manhã. Jesus advertiu sobre sua vinda: “Portanto, vigiem, porque vocês não sabem quando o dono da casa voltará; se à tarde, à meia-noite, ao canto do galo ou ao amanhecer. Se ele vier de repente, que não os encontre dormindo! O que lhes digo, digo a todos: Vigiem!” (Mc 13.35-37).

Quando Jesus disse: “antes que o galo cante duas vezes”, ele estava se referindo ao fim da terceira vigília. Ou seja, Jesus estava falando para Pedro: “Esta noite, antes de você ouvir aqueles dois toques de trombeta, você terá me negado três vezes”.

Em seguida, Jesus foi para o jardim do Getsemani, orar buscar a face do Pai. Pedro, Joao e Tiago estavam juntos e presenciaram a agonia de Jesus naquele momento, seu suor transformou-se em sangue. Por três vezes, Jesus orou insistentemente ao Pai. Quando voltou aonde estavam os discípulos, todos estavam dormindo, cansados. Ele olhou para Simão Pedro e disse: “...voce está dormindo? Não pode vigiar nem por uma hora?” (Mc 14,37).

Ele escolheu Pedro. Por quê? Porque Pedro foi o primeiro que, naquela mesma noite, tinha declarado tão ousadamente, “mesmo que todos falhem, eu não falharei”. E agora ele estava roncando, fraco demais para vigiar ou ficar acordado.  Em seguida, quando Judas chegou com o destacamento militar para prender Jesus, diz Marcos: “então todos o abandonaram e fugiram” (Mc 14.50).

Todos fugiram, todos desertaram, todos abandonarão Jesus. Um a um eles foram fugindo – fugindo para a escuridão daquela noite de medo, para o anonimato. “Todos os abandonaram e fugiram”. Eles se dispersaram como ratos assustados.

2)     A negação de Pedro

Levaram Jesus ao sumo sacerdote; e então se reuniram todos os chefes dos sacerdotes, os lideres religiosos e os mestres da lei. Pedro o seguiu de longe até o pátio do sumo sacerdote. Sentando-se ali com os guardas, esquentava junto ao fogo” (Mc.14.53,54).

Pedro acompanhou Jesus de longe, seguindo a multidão até o pátio do sumo sacerdote. Ali, os soldados estavam reunidos em volta de um pequeno fogo; cuidadosamente, envolto numa capa. Pedro aproximou-se das brasas para se aquecer.  Pedro estava com medo, mas também estava curioso; sua lealdade estava em conflito com seu medo. Então, ele seguiu Jesus à distância...

Enquanto isso, Jesus estava sendo julgado pelos religiosos. Estava sendo torturado, humilhado, cuspido, amaldiçoado e falsamente acusado, mas permaneceu ali em silencio, sangrando. Zombaram de Jesus, vendaram seus olhos e esbofeteavam e diziam: “Diga-nos quem bateu em você”. Escondido nas sombras, observando tudo, estava Pedro, perseguido pela lembranças de suas próprias palavras.

“Então Pedro embaixo, no pátio, uma das criadas do sumo sacerdote passou por ali. Vendo Pedro aquecer-se, olhou bem para ele e disse: Voce também estava com Jesus, o Nazareno” (Mc 14.66). Sim, ela disse, eu te conheço, você é um dos seguidores do Nazareno. Mas, ele respondeu: “Não conheço, nem sei do que você está falando”. E saiu para outro lugar...

Logo, Pedro se retirou para uma distância mais segura, logo se afastou para mais longe, a fim de acalmar toda suspeita, mas a criada era insistente: “Quando a criada o viu lá, disse novamente aos que estavam por perto: Esse ai é um deles”. De novo ele negou (Mc 14.69-70).

Desta vez, a criada se dirigiu à multidão que estava por perto, dizendo: “Escutem, este é um deles”. E, mais uma vez Pedro negou abertamente qualquer associação com Jesus de Nazaré.  “Certamente você é um deles, Voce é galileu” (Mc 14.70).

Como assim? Galileu! “...o seu modo de falar o denúncia”. Alguns galileus tinha dificuldade para pronunciar algumas palavras do dialeto em Jerusalém naquela época. Os galileus eram considerados ignorantes e incultos, enquanto os habitantes de Jerusalém eram mais cultos, falavam mais de um idioma. 

Pedro em desesperdo, começou a praguejar: “Ele começou a se amaldiçoar e a jurar: Não conheço o homem de quem vocês estão falando”. E logo o galo cantou pela segunda vez. Então Pedro se lembrou da palavra que Jesus lhe tinha dito: antes que duas vezes cante o galo, você me negará três vezes. E se pôs a chorar” (Mc 14.71,72).

O que atormentou o apostolo Pedro foi: primeiro, a trombeta anunciou o fim da terceira vigília, e em seguida tocou novamente. O canto do galo, duas vezes na orelha de Pedro e havia negado Jesus por três vezes!

Conclusão

O evangelista Lucas escreve que na terceira negação de Pedro, quando o galo cantou, Jesus estava saindo do Sinédrio acompanhado pelos soldados e “O Senhor olhou diretamente para Pedro...” (Lc 22.60.61). Quando Pedro viu o olhar de Jesus, logo se lembrou de suas palavras; “Asseguro-lhe que hoje, esta  noite, antes que duas vezes cante o galo, três vezes você me negará” Que humilhação!

Como teria sido aquele olhar? Seria um olhar de surpresa? Não, Jesus havia afirmado que Pedro iria negá-lo. Seria um olhar de ira e rejeição?  Não, o amor de Deus por nós é gracioso! Mas, um olhar cheio de compaixão, cheio de graça, cheio de misericórdia. Um olhar de recomeço, um olhar de segunda oportunidade, um olhar de uma segunda unção. Uma profecia: a gloria da segunda casa será maior do que a da primeira!

 

 

 

 

 

 

terça-feira, 24 de fevereiro de 2026

 Jonas prega em Ninive       -      Jn 3 

Introdução

Todas as versões do capítulo 3 é unânime em afirmar: “A palavra veio a Jonas pela segunda vez...”. Deus, novamente, pela segunda ordena Jonas para pregar na grande cidade de Nínive. “Levante-se, vá à grande cidade de Nínive”. Deus não dá um sermão, simplesmente, lhe dá uma nova oportunidade de cumprir sua missão. Isto é típico do caráter de Deus. 


Deus sempre dá uma segunda chance aos fracassados. Quem foi lançado ao fundo do mar, dessa vez, não foi o profeta Jonas, mas foi seu pecado. Como disse o profeta Miquéias: “Voltarás a ter compaixão de nós; pisarás nossas maldades sob teus pés e lançaras nossos pecados nas profundezas do mar” (Mq 7.19). Aliás, o profeta Isaías, enfatiza sua imensa graça: “Embora seus pecados sejam como o escarlate e os tornarei brancos como a neve; embora sejam vermelhos como o carmesim, eu os tornarei brancos como a lã” (Is 1.18).

 Vejam a atitude do apostolo Pedro. Ele bateu no peito afirmando que nunca negaria Jesus, no entanto, quando o galo cantou pela terceira vez ele negou Jesus por três vezes. Quando se reuniram as margens do mar da Galileía, Jesus olhou para o apostolo Pedro e disse: “Apascenta as minhas ovelhas”. Todos nós temos falhas, algumas menores, mas outras gritantes. Mas, por causa da sua graça, Ele confia em gente que fracassa e dá, uma segunda oportunidade.

1)     Pela segunda vez

“Pela segunda vez...”. Que pena que Deus tenha precisado falar uma segunda vez com Jonas! Quantas dificuldades teriam sido evitadas se o profeta tivesse sido obediente logo da primeira vez. Por causa da desobediência, Jonas desceu para Jope, desceu para o navio, desceu para o porão do Navio e, finalmente, desceu na boca de um grande peixe. A obediência é a melhor maneira de prevenir a descida. Deus não gosta de ser desobedecido.

“Levanta-te e vai à grande cidade de Nínive”. Agora a linguagem é mais incisiva. “....a mensagem que eu te ordeno”. Portanto, é uma ordem que o profeta deve acatar, deve pregar a minha Palavra. Não podia retroceder, não podia titubear, não podia sair pela tangente. O que muitos fariam alegremente para semear o evangelho, Jonas faria como uma obrigação, como uma imposição. 

Logo, o profeta Jonas não era livre para escolher por si mesmo o que diria aos homens. Não foi até eles para lhe falar sobre suas experiencias, testemunhos. Ele decidiu o conteúdo de sua pregação. Já estava decidido! O nosso testemunho deve estar firmemente ligado à Palavra de Deus. O apostolo Paulo escrevendo para a igreja de Corinto, ele diz: “Quando fui ter convosco, anunciando-vos o testemunho de Deus, não fui com sublimidade de palavras ou de sabedoria. Porque nada me propus saber entre vós, senão a Jesus Cristo e este crucificado” (1 Co 2.1-4).

Quando Deus lhe falou pela primeira vez, Jonas levantou-se para fugir da presença de Deus: “Levanta-te e vai a grande cidade de Ninive...Jonas se levantou, mas, foi em direção de Tarsis, a fim de fugir do Senhor” (Jn 1.1-2). Agora, se levanta para obedecer. E desta vez seu destino, sua missão, seu chamado é para Ninive. Sua atitude agora é “segundo a Palavra do Senhor” (Jn 3.1-2).

Diz-nos o texto que Ninive era uma grande cidade “Mais de cento e vinte mil pessoas que não sabem discernir a sua mão direita e a esquerda”. Se essa expressão, conforme os comentaristas, é um idiomatismo hebraico, então se refere a cento e vinte mil crianças, logo, a população seria de seiscentos mil habitantes. Que vasto campo missionário para um pregador!

2)     Sua mensagem

“Daqui a quarenta dias Nínive será destruída” (Jn 3.4). “Daqui a quarenta dias Nínive será subvertida” ARC). Subvertida equivale ao mesmo verbo usado para a destruição de Sodoma e Gomorra por Deus (Gn 19.21,25,29). “Quarenta dias” são um período de provação, significa algo acabado, completado. 

Os quarenta dias na Arca de Noé foram uma provação. “E viu o Senhor que a maldade do homem se multiplicara sobre a terra e que toda a imaginação dos pensamentos de seu coração era só má continuamente” (Gn 6.5).  Uma geração má, uma geração violenta, uma geração corrompida pelo pecado, levando toda sujeira para as gerações futuras.

Os quarenta anos de Moisés no deserto de Midião foi uma completude, uma escola de crescimento. E, mais, foi uma maneira de aprender que só existe só um que é portentoso, maravilhoso, poderoso: “O Senhor apareceu a Moisés numa chama de fogo do meio duma sarça” (Ex 3). Não era Faraó, mas o “Eu sou o que Sou”!

Os quarenta anos no deserto foram um treinamento para viver as promessas de Deus, viver pela fé no perigoso deserto do Sinai. Durante o dia havia uma coluna de nuvem guiando, de noite, uma coluna de fogo. Por quarenta anos, Deus mandou maná do céu, da rocha saiu água. Sim, quarenta anos, para provar que Deus cuida, como a menina dos seus olhos.

Os quarenta dias de fuga de Elias o levaram das ilusões perigosas que vinham da corte de Jezabel, que queria mata-lo,  para o lugar da revelação de Deus. Andou Elias pelo deserto com receio de ser morto, mas lá na caverna Deus manifestou ao profeta, não no vento, nem no terremoto, muito menos no fogo, mas na brisa suave do vento, ele ouviu a voz de Deus.

Os quarenta dias que Golias atormentou os israelitas “todos os homens em Israel, vendo aquele homem, fugiram diante dele, e temiam grandemente”. Todos os dias, o exército de Saul foi fustigado pelo temor; não havia um homem com coragem para enfrentar o gigante. Até que no quadragésimo dia, apareceu Davi, para mostrar “Tu vens contra mim com espada, lança e escudo pontiagudo; eu, no entanto, venho contra ti em Nome do Senhor, o Senhor dos Exercitos...” (1 Sm 17.45).

Os quarenta dias que Jonas anunciou em Nínive: “Ainda quarenta dias, e Nínive será destruída”, era uma mensagem de misericórdia quanto uma mensagem de juízo. Se o povo se arrependesse de seus pecados Deus teria misericórdia dos ninivitas; mas se o povo continuasse em sua obstinação, a cidade seria subvertida, destruída.

Em cada caso, o número quarenta funciona como aviso, cuidado! o último dia, o quadragésimo dia, molda o conteúdo dos trinta e nove anteriores. Se os quarenta dias são bem-sucedidos, a vida começa de maneira nova. Mas, se os quarenta dias são ignorados, a vida será subvertida. A arca naufraga e todos morrem; os israelitas voltam para o Egito para ser escravo e fazer tijolo para Faraó; Elias se sucumbe diante da pressão de Jezabel; Golias vence e o povo de Israel sai derrotado; Moisés passa os restos dos seus dias cuidando de ovelhas em Midiã... 


3)     Arrependimento

Para espanto do profeta Jonas as pessoas não zombaram dele nem lhe fizeram nenhum mal. As pessoas de Nínive “creram em Deus” (Jn 3.5), e a cidade respondeu a sua pregação de três dias. O termo hebraico para “arrepender-se” ocorre quatro vezes nos versículos 8 a 10 “...converterão cada um de seu mau caminho” (v.8). isto é, contrariando, todas as expectativas, a poderosa, orgulhosa e violenta cidade de Nínive, vestiu-se de pano de saco – um sinal de arrependimento em massa.

“Quem sabe se voltará Deus, e se arrependerá, e se apartará do furor da sua ira, de sorte que não pereçamos” (v.9). Eles fizeram do “maior até o menor” (v.5). Os habitantes de Nínive creram em Deus, desde o mais importante até o mais humilde, declararam um jejum e se vestiram de pano de saco. O rei de Ninive “...desceu do trono, tirou as vestes reais, vestiu-se de pano de saco e sentou-se sobre um monte de cinzas” (v.6). 

Conclusão

Em janeiro de 1907, ocorreu uma conferencia bíblica, na capital da Coréia do Norte. A igreja tornou-se profundamente convicta de seu pecado, especialmente quando foi exortada a se arrepender de seu ódio tradicional pelos japoneses. Os coreanos presentes naquela conferencia viram que, perante Deus, eram igualmente pecadores e condenados juntamente com todos os demais seres humanos, ainda que resgatados  pela mais pura e vistosa graça de Cristo. Isso dissipou deles o orgulho e a amargura.

 As pessoas iam de casa em casa para reatar relacionamentos rompidos e devolver coisas roubadas. Os cultos de adoração estavam cheios de um novo poder. O resultado foi um crescimento explosivo da igreja. Houve muitos movimentos espirituais desse tipo ao redor do mundo na história da igreja. 

terça-feira, 17 de fevereiro de 2026

 Jonas e a graça de Deus Jn 2 


Introdução

Jonas tentou fugir da “presença do Senhor” indo para Társis. A missão era Ninive mas fugiu para Társis, Espanha. Pegou um navio, comprou passagem somente de ida, não queria de modo algum submeter-se a ordem de Deus. Pois, o que era mais importante para Jonas não era Deus, não era sua Palavra, sua presença; mas, sim, a camada mais importante era sua nacionalidade, sua etnia, israelense. 

Logo, Deus “fez soprar um forte vento sobre o mar, e caiu uma tempestade tão violenta que o barco estava prestes a se arrebentar” (Jn 1.4). Jonas, virou as costas para Deus, pensou que poderia fugir da presença de Deus, mas Deus veio através de uma tempestade. Como disse o profeta Naum: “O Senhor anda pelo meio das tempestades e dos ventos violentos...” (Na 1.3). Os marinheiros perceberam que não era uma tempestade natural, mas sobrenatural, ou seja, alguém no navio causou aquela tempestade. E acharam Jonas, lançando sortes, como causador de todo esse mal.

Então, Jonas disse aos marinheiros: “Jogue-me ao mar; e ele voltará a ficar calmo, eu sei que esta terrível tempestade é culpa minha” (Jn 1.12). Nos diz o texto: “Os marinheiros pegaram Jonas e lançaram ao mar e, no mesmo instante, a furiosa tempestade se aquietou”. Sim, “a tempestade cessou”, “a fúria do mar se acalmou”. Quando o profeta Jonas é lançado ao mar, imediatamente, subitamente, no mesmo instante, a tempestade cessou quanto uma luz que é desligada. A “fúria” da tempestade era uma expressão real da ira de Deus contra seu rebelde profeta, a qual foi deixada de lado quando Jonas foi lançado às ondas do oceano.

Houve temor. Quando o mar se torna totalmente calmo, eles são “tomados” por “grande temor” maior do que quando pensavam que se afogariam. O Temor do “Senhor” é a essência de todo conhecimento e sabedoria. Como diz Provérbios: “O temor do Senhor é o princípio da sabedoria...” (Pv 9.10). O temor do Senhor é o conhecimento daquele que é santo, conhecê-lo é temê-lo! Diz o texto que imediatamente “...os marinheiros lhe ofereceram sacrifícios e firmaram o compromisso de servi-lo” (Jn 1.16 NVT). 

1)     Deus mandou um grande peixe

O Senhor ordenou que um grande peixe engolisse Jonas” (Jn 1.17). Esse verbo “ordenar” é usado várias vezes no livro, como no capítulo 4 quando Deus ordenou que uma planta crescesse e depois morresse. “O Senhor Deus fez crescer ali uma planta...” (Jn 4.6); “Deus também mandou uma largata, e ela comeu o talo da planta que secou” (Jn 4.7). Olhando em retrospectiva, podemos ver que as lições mais importantes que aprendemos na vida são resultado da mais pura e simples misericórdia de Deus. São momentos difíceis, excruciantes que ocorreram em nossa vida, mas que depois, colhemos os benefícios da aflição. 

O grande peixe é um exemplo perfeito dessa misericórdia tão nua e crua. Obviamente, o peixe salvou a vida de Jonas quando o engoliu. Pois, ele estava afundando nas profundezas do mar, “até os fundamentos dos montes”, longe de qualquer ajuda ou esperança. Jonas ainda estava vivo, mas por quanto tempo? Em 2021, um homem chamado Michael, de Massachusetts foi engolido por um grande peixe, ficou 30 e 40 segundos dentro do peixe, até que a baleia subiu na superfície e cuspiu para fora.

No caso do pescador foi um acidente, mas quanto a Jonas, era devido sua desobediência a Deus. E quando desobedecemos é preciso que haja um “tratamento radical para que isso seja remediado”. O texto descreve Jonas em movimento descendente: primeiro descendo até a cidade de Jope, depois descendo até o navio, em seguida, descendo até as profundezas do mar. Quando estamos em desobediência parece que nunca vamos parar de descer. Por fim, o profeta Jonas desce na barriga de um grande peixe... 

“MAS SOMENTE QUANDO ELE DESCEU ATÉ O FUNDO DO POÇO, ENFIM, DESPOJADO DE SUA PRETENSA AUTOSSUFICENCIA, A LIBERTAÇÃO FOI POSSIVEL”.

O QUE FALAR DE JACÓ? AINDA NÃO ESTAVA PREPARADO PARA LIDERAR SUA FAMILIA ATÉ SER FORÇADO A FUGIR DE CASA, PASSAR ANOS NA MÃO DE UM SOGRO GANANCIOSO E ENFRENTAR UM ENCONTRO VIOLENTO COM ESAÚ, O IRMÃO QUE FORA LESADO. FORA ENTÃO, QUANDO ELE ESTAVA NO FUNDO DO POÇO, QUE SE ENCONTROU COM DEUS FACE A FACE (GN 32).

O QUE FALAR DE MOISÉS? CRIADO NO PALÁCIO DE FARAÓ, PREPARADO NAS LINGUAS EGIPCIAS, PREPARADO PARA LUTAR AS GUERRAS DE FARAÓ. ERA UM HOMEM QUE CONHECIA SUAS RAIZES, SABIA QUE ERA JUDEU E O SEU POVO VIVIA EM AFLIÇÃO. SABIA QUE DEUS TINHA UM CHAMADO ESPECÍFICO, UMA MISSÃO. MAS, MOISÉS, ADIANTOU-SE, E MATOU UM EGIPCIO E POR CAUSA DISSO, FUGIU, ABANDONOU TUDO E FOI MORAR EM MIDIAN, PARA CUIDAR DE OVELHAS.

Somente quanto todos os esquemas e recursos estão falidos e exauridos, é que voce finalmente se abre para aprender como depender completamente de Deus. OU, VOCE SÓ PERCEBE QUE JESUS É TUDO O QUE PRECISA QUANDO JESUS É TUDO O QUE VOCE TEM. É PRECISO PERDER A SUA VIDA PARA ACHÁ-LA. “Quem perde sua vida por minha causa a encontrará” (Mt 10.39).

Quando chegamos a fundo do poço é que encontramos o lugar que habitualmente aprendemos os maiores segredos sobre a graça de Deus. Sim, não é simplesmente o fato de estar no fundo que começa a mudar, mas, sim, quando começar a orar. Jonas começa a orar. E, no momento mais alto da oração, ele evoca a chesed (Jn 2.8), que é traduzida por “misericórdia”, “amor inabalável” ou “graça”. 

2)     Graça

Infelizmente, em nossa sociedade atravessando o “deserto do mal moral”. Vivemos numa sociedade niilista, onde os valores são relativizados, onde a família virou uma lata de conserva. Logo, não existe uma moral absoluta, como disse Dostoiévski em seu livro “Os irmãos Karamazov”: “Se Deus não existe, tudo é permitido”. Mas, Jonas em sua oração sabe muito bem que essa moral relativista é esterco de vaca, titica de galinha. No desespero que encontramos com Deus: “Nas profundezas do oceano me lançaste, e afundei até o coração do mar. As águas me envolveram: fui encoberto por tuas tempestuosas ondas” (Jn 2.3-4). Jonas sabia que a justiça divina existia e que ele a merecia. 

Somos impotentes, pois mais que tentemos temos que admitir “nossa impotência espiritual”. Devemos admitir não apenas nossos pecados, mas também o fato de que não podemos nos livrar ou nos purificar deles. Embora muitos estão em busca de terapia psicológica, procurar uma psicanalista etc. Outros, tentam preencher com o trabalho e observância religiosa, contudo, não conseguem restaurar seu relacionamento com Deus. no versículo 6, lemos: “Afundei até os alicerces dos montes; fiquei preso na terra, cujas portas se fecharam para sempre. Mas tu, ó Senhor, meu Deus, me resgataste da morte” (Jn 2.6). 

Ele diz que está afundando até o “submundo”, o mundo submerso mais distante da humanidade viva e de Deus em seu templo “cujas trancas se fecharam sobre mim para sempre”. Ele percebe que está condenado e permanentemente barrado por seu pecado e rebelião, e não há nenhuma forma possível de abrir os portões por si mesmo ou de pagar sua dívida.

E, mais, temos que vê o alto custo da salvação. Não apenas, uma, mas duas vezes em oração, Jonas olha não apenas para o céu, mas para “teu santo templo” (Jn 2.4). “Poderia contemplar o teu santo templo uma vez mais”. Alguém que se escondeu da presença de Deus, está ansioso para estar novamente na presença de Deus. E, vai além: “E, depois olha para o templo da tua santidade” (Jn 2.7).  

Jonas sabia que era de cima do propiciatório que Deus prometera falar conosco (Ex 25.22). o propiciatório era uma tampa de ouro que ficava em cima da arca da aliança. No dia da expiação, o sumo sacerdote aspergia o sangue do sacrifício expiatório pelos pecados do povo sobre o propiciatório (Lv 16.14-15). Diante do propiciatório aprendemos tres verdades: somos pecadores, incapazes de salvar a nós mesmos e a salvação se deu por um alto custo.

Conclusão

Ouvimos um grito de desespero do profeta: “as trancas se fecharam sobre mim para sempre”. Jonas está perdido, está condenado, incapaz de escapar daquele grande peixe, as portas da prisão se fecharam. Mas, ele ora, ele clama, ele suplica “...porém, tu me levantas da cova, ó Senhor, meu Deus” (Jn 2.6). Diante do meu quebrantamento do profeta, diz o texto: “O Senhor deu ordens ao peixe, e este vomitou Jonas na terra” (Jn 2.10). Quando confessamos nossos pecados, vem a libertação, o relacionamento é restaurado. Ele termina dizendo: “A salvação vem somente do Senhor” (Jn 2.9).