terça-feira, 15 de junho de 2021

  A PRESENÇA E O PODER DE DEUS – EX. 33.1-11


Introdução:

Se um “cristão” não lê a Bíblia, não ora, nem vive como discípulo de Cristo, tanto faz ser católico ou evangélico. Sua vida e seu destino serão o mesmo. Então, surge uma pergunta: somos evangélicos por causa do evangelho ou somos evangélicos por causa de uma cultura religiosa evangélica que nem sempre é coerente com o evangelho.

1)    O bezerro de ouro

“Disse o Senhor a Moisés: vai sobe daqui t e teu povo que tiraste da terra do Egito para a terra a respeito da qual eu jurei a Abraão, a Isaque e a Jacó dizendo: À tua descendência a darei. Enviarei o anjo diante de ti; lançarei fora os cananeus, os amorreus, os heteus, os ferezeus, os heveus e os jebuseus. Sobe para uma terra que mana lei e mel; eu não subirei no meio de ti, porque és povo de dura cerviz, para que não te consuma eu no caminho. OU vindo o povo estas más noticias pôs-se a prantear e nenhum deles vestiu seus atavios” (Ex 33.1-4).

Sempre ligamos o PODER DE DEUS À PRESENÇA DE DEUS. Mas, pelo texto, estas duas coisas nem sempre parecem se complementar e nem sempre se manifestam ligadas. Aqui, Moisés tinha subindo ao Monte para estar com Deus e, durante quarenta dias, o povo se cansou, e se desesperou. Pediram a Arão que lhes fabricasse: “faça para nós deuses que nos guiem” (Ex 32.1). Arão, então, diante da pressão, ordenou: “Tirem as argolas de ouro das orelhas de suas mulheres e de seus filhos e tragam para mim” (Ex 32.2). Então, construíram um bezerro de ouro, uma divindade Cananéia e egípcia. 



A ira de Deus se acendeu, porque além do pecado da idolatria: “Não farás para ti imagem de escultura, nem alguma semelhança do que há em cima nos céus, nem em baixo na terra, nem nas aguas debaixo da terra” (Ex 20.4). O povo também se entregou à orgia (Ex 32.5). O texto em hebraico diz que eles estavam literalmente NUS, parecia o carnaval de Salvador.

 Diante disso, vem a intercessão de Moisés que pede ao Senhor misericórdia , pois sente que a ira de Deus era presente: “... e eu lançarei contra eles minha ira ardente...” (Ex 32.9). Moisés, intercede pelo povo ingrato e desobediente: “Ah, que grande pecado cometeu este povo! Fizeram para si um deus de ouro. Mas, agora, eu te rogo, perdoa-lhes, se não, risca-me do teu livro que escreveste” (Ex 32.31,32). Depois disto, o verso 34, do capítulo 32, termina com uma promessa: “VAI, POIS, AGORA, E CONDUZE O POVO PARA ONDE TE DISSE: EIS QUE MEU ANJO VAI ADIANTE DE TI; PORÉM NO DIA DA VISITAÇÃO VINGAREI NELES O SEU PECADO”. 



2)    Discernindo a manifestação do poder de Deus.

“Mandarei à sua frente um anjo e expulsarei os inimigos...mas Eu não irei com vocês”.  O poder de Deus se manifesta por causa da fidelidade exclusiva de Deus, eu jurei e vou cumprir a minha Palavra  apesar desses desobedientes e ingratos. Mateus, escreve: “No dia do juízo, muitos me dirão: “Senhor! Senhor! Não profetizamos em teu nome? Não expulsamos demônios em teu nome  e não realizamos milagres em seu Nome? Eu, porém, responderei: Nunca os conheci. Afastem-se de mim, vocês que desobedecem à lei” (Mt 7.24-25). 


A mesma pessoa que orou por um canceroso e ele ficou curado, um dia vai ouvir de Jesus: “Nunca vos conheci”. Pois, quem opera o milagre e cura o doente não é aquela que ora impondo as mãos, mas O TODO PODEROSO.  Pedro afirmou no primeiro milagre da igreja primitiva: “Pela fé no Nome de Jesus, este homem que vocês veem e conhecem foi curado. A fé no Nome de Jesus o curou diante dos seus olhos” (Atos 3.16).

 3)    Discernindo a presença de Deus

O texto de Êxodo 33.7-11 descreve a relação cotidiana de Moisés com Deus. Ele arma sua tenda fora do arraial e para lá vai todos os dias. A Palavra de Deus diz que o povo se colocava de pé, cada um em sua tenda, observando Moisés indo à tenda da congregação. Todo povo via quando a coluna de nuvem descia sobre a tenda de Moisés: “Eis que o Senhor falava com Moisés face a face, como quem fala ao seu amigo” (Ex 33.11).

Vejamos a diferença entre o texto de Exôdo 33.17, quando Deus diz a Moisés “Eu te conheço pelo teu nome”, e o de Mateus 7.23, quando o Senhor diz: “Nunca vos conheci”. Aqueles queriam e usavam apenas o poder, ao passo que Moisés usa o poder e vive a presença de Deus. A presença de Deus é resultado de intimidade com Ele; de vida com Ele; de tempo na presença dEle; de mente que busca e se conforma com o caráter dEle.

E, quanto mais buscamos mais nos aprofundamos em experiência  com Ele. “O Senhor confia os seus segredos aos que o temem” (Sl 24.14). Em Exôdo 33.18-23 vemos Moisés se aprofundando diante da presença de Deus. Moisés, roga: “Rogo-te que me mostres a tua glória. Respondeu-lhe: Farei passar toda a minha bondade e anunciarei diante de você, o meu nome, Senhor” (Ex 33.18-19).  E o Senhor continua: “Pois terei misericórdia de quem eu quiser, e mostrarei compaixão a quem eu quiser. Mas você não poderá olhar diretamente para minha face, pois ninguém pode me ver e continuar vivo” (Ex 33.18-20). Isso é graça, puramente a graça de Deus!

O verso 21 nos fala de uma fenda numa rocha, isso tudo ocorre enquanto Moisés intercedia e falava com Deus. “Quando passar a minha glória, eu te porei numa fenda da rocha, e com a mão te cobrirei; até que eu tenha passado” (Ex 33.21,22). “...com a mão te cobrirei..” Olha o cuidado de Deus, seu zelo por Moisés, como uma mãe protege o filho. Portanto, a experiência da presença de Deus é graça pura, é alegria no espírito, é gozo, é contentamento, é paz, são línguas estranhas, é um poder tão maravilhado que ficamos sem fala, sem voz....arrebatados... 


 4)    O poder de Deus sem a presença de Deus

“Enviarei o anjo diante de ti; lançarei fora os cananeus, os amorreus, os heteus, os ferezeus, os heveus e os jebuzeus. Sobe para uma terra que mana leite e mel...EU NÃO SUBIREI NO MEIO DE TI” (Ex 33.2-3).

O anjo do Senhor estaria com eles, mas o próprio Senhor não iria. O anjo vai efetuar o poder liberado de Deus, mas o Senhor não está no meio deles. É como se Deus falasse: “Voces querem prosperidade? Voces querem uma terra que mana leite e mel? Vocês querem um anjo poderoso  que vá com sua espada desembainhada derrubando obstáculos? Todavia, não irei; pois vocês são um povo duro, casca grossa, rebelde e a minha presença não estará convosco. Se eu for no meio de vós, minha PRESENÇA IRÁ CONSUMI-LOS. Porque não posso estar no meio do adultério, da imoralidade sexual, do homossexualismo, da violência, da mentira, da preguiça, da cobiça e da traição. 



É possível haver prosperidade, vitória, carro, e até um anjo abrindo caminha para crentes mascarados, mas a presença do Todo Poderoso não se afina jamais com a dureza de coração e com o pecado. Moisés, não aceita o poder sem a presença: “Se a tua presença não vai comigo, não nos faça subir deste lugar” (Ex 33.15).

Conclusão: Presença mais poder

"Faço com vocês uma aliança", disse o Senhor. "Diante de todo o seu povo farei maravilhas jamais realizadas na presença de nenhum outro povo do mundo. O povo no meio do qual você habita verá a obra maravilhosa que eu, o Senhor, farei. Êxodo 34:10. Deus está dizendo: se vocês não quiserem se satisfazer apenas com o anjo e quiserem andar na minha presença, vocês verão coisas extraordinárias que nação nenhuma jamais viu, povo algum nunca presenciou, coisas estas que ainda estão para ser escritas. Mody: “O mundo ainda esta para ver o que Deus pode fazer através de um homem que se coloca nas mãos dEle”. 



terça-feira, 8 de junho de 2021

 Perseguição externa e interna – Atos 4

Introdução: A China abriu as portas para o evangelho em 1950. Havia dois milhões de convertidos em uma população de um bilhão de chineses. Então, Mao Tsé-Tung massacrou 50 milhões de cristãos. Depois da Mao morreu e as portas se abriram de novo, descobriu que havia não 2 milhões, mas quase 50 milhões de cristãos na China. A perseguição os havia multiplicado por quase vinte e cinco vezes, em 50 anos.

1)    Perseguição externa (Atos 4.7-13)

Primeiro, há  desprezo (Atos 4.13). O Sinédrio considerava Pedro e João homens iletrados e incultos. A palavra traduzida "iletrados" significa que não tinham nenhuma educação técnica, especialmente nas intrincadas normas e a casuística da Lei. A palavra que se traduz por "incultos" significa que eram leigos sem nenhuma qualificação profissional. O Sinédrio, tal como era, considerava-os homens sem educação superior e sem status profissional.  


O segundo dos ataques consistiu em ameaças: “Ordenaram-lhes que não falassem nem ensinassem em nome de Jesus” (Atos 4.18). Foi-lhes dito o que lhes aconteceria se continuassem no caminho que escolheram. Mas as ameaças do homem são impotentes para dobrar o cristão porque ele sabe que o que o homem lhe fizer será momentâneo, enquanto que as coisas de Deus duram para sempre. Pedro e João, ao enfrentar estes ataques, tinham certos argumentos em sua defesa: 

Primeiro, contavam com um fato indisputável (Atos 4.16). Era impossível negar que o homem ficou curado. A defesa e a maior prova incontrovertível do cristianismo é um cristão. Em última análise as palavras não importam muito. O maior argumento do evangelho é um homem transformado, um coxo andando, um cego vendo, um bêbado sóbrio, um drogado cheio do Espírito, um blasfemo reverente, um avarento honesto. O ateu desafiou o crente acerca de sua fé. O crente respondeu: "Traga-me um homem que foi transformado pelo ateísmo e lhe apresentarei um séquito de ladrões, prostitutas e avarentos que foram transformados por Jesus". 



 Segundo, tinham o argumento de uma fidelidade total a Deus (Atos 4.19-20). Tinham que escolher entre obedecer ao homem ou obedecer a Deus. Pedro e João não duvidavam do caminho que deviam seguir. O verdadeiro segredo do cristianismo descansa nesse grande tributo que recebeu uma vez John Knox: "Temia tanto a Deus que nunca teve medo de enfrentar o homem". Quando o carrasco de Perpétua (uma jovem cristã martirizada em Cartago, século III) a estava intimidando na arena da morte, ela disse: "Viva, eu te vencerei; na minha morte, vencer-te-ei ainda mais". 

Uma vez o enviado papal ameaçou Martinho Lutero com o que aconteceria se continuava em seu caminho e o preveniu que no final todos os seus seguidores o abandonariam. "Para onde irão então?", perguntou-lhe. Lutero respondeu: "Então como agora estarei nas mãos de Deus". Para o cristão os que são por nós são sempre mais que os que são contra nós.

Mas o terceiro ponto de sua defesa era o mais grandioso. Era o argumento de uma experiência pessoal de Jesus Cristo: “Pois não podemos deixar de falar do que vimos e ouvimos” (Atos 4.20). Como disseram Pedro e João, não podiam deixar de falar a respeito daquelas coisas que tinham visto e ouvido pessoalmente.. “E em nenhum outro há salvação, porque também debaixo do céu nenhum outro nome há, dado entre os homens, pelo qual devamos ser salvos” Atos 4:12

2)  Uma igreja que ora (Atos 4:23-31) 


 Primeiro, Ele é o Deus da criação (v.24); Segundo, ele é o Deus da revelação, que falou por intermédio do Espírito Santo por boca de ...Davi, e que no Salmo 2 tinha predito a oposição do mundo ao seu Cristo, com os gentios enfurecidos, povos imaginando coisas vãs, reis se levantando e autoridades ajuntando-se contra o Ungido do Senhor (vs. 25-26); Terceiro: Ele é o Deus da história, que fez com que até os seus inimigos (Herodes e Pilatos, os gentios e judeus, unidos numa mesma conspiração contra Jesus, v.27) fizessem tudo o que a mão e o propósito de Deus predeterminaram.  Vemos, tres verbos: "fizeste"(v.24), "disseste" (v.25) e "predeterminaste" (v.28). 

 A igreja fez três pedidos principais: O primeiro era que OLHASSE PARA SUAS AMEAÇAS (v.29 a). O segundo pedido era que Deus os capacitasse a serem seus servos (literalmente "escravos") para falar da sua Palavra com toda a intrepidez (v.29 b). A terceira petição era para que Deus lhes estendesse a mão para fazer curas, sinais e prodígios, por intermédio do nome... Jesus (v.30, Atos 5.12).

Em resposta a essa oração sincera e unânime: 1) tremeu o lugar e, segundo comentou Crisóstomo "aquilo os tornou mais inabaláveis"; 2) todos ficaram cheios do Espírito Santo; e 3) em resposta aos seu pedido especifico (v.29), anunciavam a palavra de Deus, com intrepidez (v.31). 

O capitulo termina falando sobre sobre a Koinonia que havia na igreja: “E era um o coração e a alma da multidão dos que criam, e ninguém dizia que coisa alguma do que possuía era sua própria, mas todas as coisas lhes eram comuns” (v.32). Exemplifica narrando a sobre a oferta de José, cognominado pelos apóstolos Barnabé, que significa filho da consolação. “Possuindo uma herdade, vendeu-a, e trouxe o preço, e o depositou aos pés dos apóstolos” (Atos 4.37). 



3) Perseguição interna

       A história da mentira e morte desse casal é importante por vários motivos. Ela ilustra a honestidade de Lucas como historiador; ele não omitiu este sórdido episódio. Nem tudo era romântico e justo!

   Esta história é mais um exemplo da estratégia de Satanás. Esse relato é um paralelo entre Ananias e Acã – aquele que roubou dinheiro e roupas após a destruição de Jericó (Js 7: 20-22).  O PECADO DE ANANIAS. Ananias reteve parte do dinheiro, o verbo empregado por Lucas é “apropriar-se indevidamente”. A mesma palavra usada na Septuaginta em relação ao roubo de Acã, esse verbo significa roubar. ·        Antes da venda, Ananias e Safira, assumiram algum tipo de compromisso no sentido de darem à igreja todo o dinheiro. HIPOCRISIA.  

 A apóstolo não denunciou a falta de honestidade mas a falta de integridade (trazer apenas uma parte, fingido que era todo o dinheiro). Eles não eram avarentos; eram ladrões e sobretudo – mentirosos. Querem o crédito e o prestigio sacrificial, sem incoveniências. “A motivação do casal, não era aliviar os pobres, mas inflar o próprio ego” (Atos 5:3-11).


Conclusão:

Vemos uma igreja ousada, com milagres e prodígios; uma igreja que compartilhava a koinonia. E, uma igreja com fissuras, ou seja, nem todos que estão dentro da igreja,   tem o mesmo espírito. São egoístas, avarentos, gananciosos e não fazem parte da engrenagem natural da igreja. Com o tempo, a mascara cai, ou não conseguem ficar por muito tempo no meio dos demais, são sufocados. 


terça-feira, 11 de maio de 2021

 Davi e o deserto – 1 Samuel 24


Introdução

Em-Gedi significa “fonte de cabritos”, é um pequeno Oásis às margens do Mar Morto, o grande lago de água salgada no extremo sudeste de Israel. A cerca de 300 metros dali, há uma elevação, com penhascos altos que chegam a mais de 600 metros de altura. Oferecia proteção, água e um mirante natural de onde se podia avistar quilômetros ao redor, a fim de proteger-se contra qualquer aproximação do inimigo. 


Davi e seus homens ocultaram entre as rochas e cavernas de Em-Gedi. Essas cavernas salpicavam os penhascos e serviam para esconder sua presença. Na batalha, o lugar mais elevado é sempre melhor que o mais baixo e era ali que Davi se encontrava – num lugar alto, escondido nas cavernas de Em-Gedi.

Em-Gedi é um Oásis, em meio ao deserto da Judéia. O deserto é um lugar inóspito, difícil de se viver. Mas, ali, era um deserto inusitadamente belo. Em meio ao deserto a percepção torna-se mais aguçada – em visibilidade, em cheiros, em sons. Voce vê melhor, ouve melhor, é mais atento às minúcias e crê mais – eis que talvez porque o deserto tem tanto importância em nossa espiritualidade. Nenhum barulho, quase ninguém.

1)    Davi corre para o deserto

Davi o famoso guerreiro que matou o gigante Golias. Tal feito tornou-se canção: “Saul matou milhares, Davi dezenas de milhares”. Diante da inveja do Rei Saul, Davi está sendo perseguido, procurado, caçado e sendo forçado entre uma vida de revidar ou uma vida de confiança em Deus. Mas, escolheu confiar em Deus. Então, ele iniciou a prática de santidade.

Santidade é, quando mais se relaciona com Deus, mais humano se torna – mais se torna “Davi”. Santo é, portanto, a melhor palavra para se descrever essa intensidade de vida e de humanidade que decorre do relacionamento com o Deus vivo. Somos mais humanos quando nos relacionamos com Deus.  Qualquer outro tipo de vida nos deixa menos humanos, menos nós mesmos. 



 2)    Uma tentação sutil

O dia estava quente, mas dentro da caverna faz frio. Estavam lá, quando, de repente, surge uma sombra à entrada. Davi e seus homens se surpreendem ao ver que se trata do Rei Saul. Ele entra na caverna, mas não enxerga: seus olhos, marcado pelo forte sol do deserto, ainda não tinham se ajustado à escuridão da caverna, e por isso não percebe as sombras dos homens ao fundo. Além disso, nesse exato momento, Saul não estava procurando por eles, mas entra na caverna para atender a uma necessidade fisiológica. Ele se vira de costas para eles...

Quando Davi e seus homens percebem o que está acontecendo, compreendem que naquele instante Saul vale tanto vive quanto morto, totalmente alheio à presença deles ali, desprotegido e desarmado. Seus homens lhe instigaram a agir:  É sua oportunidade, hoje o Senhor lhe diz: certamente entregarei o inimigo em suas mãos, para que faça com ele o que quiser” (1 Sm 24.4).

O que Davi feliz então: “Então, com todo cuidado, Davi se aproximou e cortou um pedaço da borda do manto de Saul” ( Sm 24.4). VOCE PODE IMAGINAR COMO FOI? Saul está ali agachado, cuidando dos seus negócios, olhando para fora da caverna e Davi se esgueira por trás dele e silenciosamente corta um pedaço de seu manto! Aqui, Davi tem a oportunidade de matar Saul; mas resiste. 



No entanto, ainda acha que o que fez é errado – ele “sentiu bater-lhe o coração de remorso” (1 Sm 24.5), ou “Sua consciência, porém, começou a pertubá-lo...”(NVT). “Então disse a seus soldados: que o Senhor me livre de fazer tal coisa ao meu senhor, de erguer a mão contra ele, pois é o ungido do Senhor” (1 Sm 24.6). Davi não viu, ali, um inimigo; viu o magnificente, embora falho, rei ungido por Deus e lhe prestou a devida honra.

 O deserto ensinou a Davi à preciosidade da vida por meio das provações que ali viveu. O deserto mergulhou Davi em belezas tão profundas que a pequenez de uma vingança pessoal se tornou impensável. “Saul é o Rei! O rei ungido. Não importa que tenha sido injusto comigo. Não tenho o direito de fazer isso com ele”.

A segunda coisa que Davi fez foi declarar um principio de justiça. Saul estava errado? Sim! Era dever de Davi endireitar as coisas? Não. Essa tarefa era de Deus “Assim Davi conteve seus homens e não deixou que matassem Saul” ( 1 Sm 24.7). O significado literal aqui, por mais estranho que pareça é “rasgado”. Ele rasgou com suas palavras. É derivado do mesmo termo hebraico que encontramos em Isaias 53 onde lemos: “Ele foi transpassado pelas nossas transgressões”, significando, “atravessado, rasgado”. Ou seja, diante das pressões de seus homens para matar Saul, Davi não cedeu.

“Não retribua a ninguém mal por mal. Procurem fazer o que é correto aos olhos de todos. Façam todo o possível para viver em paz com todos. Amados, nunca procurem vingar-se, mas deixem com Deus a ira, pois está escrito: minha é a vingança, eu retribuirei, diz o Senhor. Pelo contrário, seu o teu inimigo tiver fome, dê-lhe de comer; se tiver sede, dê-lhe de beber. Fazendo isso, amontoará brasas vivas sobre a cabeça dele. Não se deixem vencer pelo mal, mas vençam o mal com o bem” (Rm 12.17-21).

3)    Colocando os pingos nos is

Quando Saul se retirou e tomou uma certa distancia, Davi levantou sua voz e disse: “Por que o rei dá atenção aos que dizem que eu pretendo lhe fazer mal? Hoje o rei pode ver com os próprios olhos...alguns insistiram que eu o matasse, mas eu o poupei...ele é o ungido do Senhor...Olha, meu pai, este pedaço de manto em minha mão! Cortei a ponta de teu manto, mas não o matei...não lhe fiz mal algum, embora esteja a minha procura para tirar-me a vida...O Senhor julgue entre mim e ti...dos ímpios vem coisas ímpias; por isso não levantarei a minha mão contra ti...” ( Sm 24.9-14) Pensa que sou o que? Um cão morto! Uma pulga... 


 Então, Saul lhe responde: “Meu filho Davi! Voce é mais justo do que eu, pois me pagou o mal com o bem... você foi extremamente bondoso comigo, pois o Senhor me entregou em suas mãos, mas você não me matou...Agora vejo que certamente você será o rei, e que o reino de Israel prospere sobre seu governo” (1 Sm 24.16-20).

Conclusão: O Senhor é o meu refugio

O Capitulo termina: “....mas Davi e seus homens foram para sua fortaleza” (v.22).  A versão Almeida Corrigida diz: “...porém, Davi e seus homens subiram ao lugar forte”. Em outra versão,  aparece refúgio. Todas essas expressões refletem contextualmente uma realidade física, uma expressão geográfica  - um lugar onde escapamos, Em-Gedi. Mas, no livro de Salmos, a palavra perde essa conotação geográfica, ganhando em troca, uma referencia exclusiva a Jeová. Começando pelo Salmo 2, “como são felizes todos os que nele se refugiam” (v.12); pelo salmo 5: “alegre-se, porém, todos os que se refugiam em ti” (v.11); no salmo 7: “Senhor, meu Deus, em ti me refugio” (v.1). Deus é o nosso refugio, nossa fortaleza... 



 

sábado, 8 de maio de 2021

 PÔNCIO PILATOS 


"Entao Pilatos o entregou para ser crucificado. Tomaram eles, pois, a Jesus. . . Onde o crucificaram" (Joao 19:16-18).

Pilatos era culpado. De fato, a sua culpa encontra-se em nosso credo cristão o qual declara que Jesus foi "crucificado sob Pôncio Pilatos".

 Sabe-se que Pilatos foi nomeado procurador (isto e, governador romano) da província fronteiriça da Judeia pelo imperador Tibério e serviu durante dez anos, de cerca de 26 a 36 A.D. Ele adquiriu a fama de hábil administrador, tendo um senso de justiça tipicamente romano. Os judeus, porem, o odiavam porque ele os desprezava. Eles não se esqueciam de seu ato de provocação do inicio do seu governo quando exibiu os estandartes romanos na própria cidade de Jerusalem. Josefo descreve outra de suas loucuras, a saber, que desapropriou dinheiro do templo a fim de construir um aqueduto.

 Muitos acham que foi no motim que se seguiu que ele misturou sangue de certos galileus com os seus sacrifícios (Lucas 13:1). Estas são apenas algumas amostras do seu temperamento esquentado, de sua violência e crueldade. De acordo com Filão, o rei Agripa I, numa carta ao imperador Caligula, descreveu Pilatos como: "Um homem de disposição inflexível, e muito cruel como também obstinado".  Seu objetivo principal era manter a lei e a ordem, conservar os judeus perturbadores firmemente sob controle, e, se necessário para esses fins, ser implacável na supressão de qualquer tumulto ou ameaça de motim.

 O retrato de Poncio Pilatos nos Evangelhos se encaixa nessa evidencia externa. Quando os dirigentes judaicos levaram Jesus a ele, dizendo: "Encontramos este homem pervertendo a nossa nação, vedando pagar tributo a Cesar e afirmando ser ele o Cristo, Rei" (Lucas 23:2), Pilatos não pode deixar de lhes dar atenção. A medida que a sua investigação prossegue, os evangelistas ressaltam dois pontos importantes.

 Primeiro, Pilatos estava convicto da inocência de Jesus. Ele obviamente ficou impressionado com a nobre conduta, com o domínio próprio e a inocência politica do prisioneiro. De forma que ele declarou publicamente três vezes não achar nele culpa alguma. A primeira declaração ele a fez logo depois do amanhecer de sexta-feira quando o Sinédrio lhe levou o caso. Pilatos os ouviu, fez algumas perguntas a Jesus, e depois de uma audiencia preliminar anunciou: "Nao vejo neste homem crime algum".

 A segunda ocasião foi quando Jesus voltou, depois de ter sido examinado por Herodes. Pilatos disse aos sacerdotes e ao povo: "Apresentastes-me este homem como agitador do povo; mas, tendo-o interrogado na vossa presença, nada verifiquei contra ele dos crimes que o acusais. Nem tampouco Herodes, pois no-lo tornou a enviar. E, pois, claro que nada contra ele se verificou digno de morte." A esta altura a multidão gritou:"Crucifica-o! Crucifica-o!" Mas Pilatos respondeu, pela terceira vez: "Que mal fez este? De fato nada achei contra ele para condena-lo a morte".

 Alem disso, a conviccao pessoal do Procurador acerca da inocência de Jesus foi confirmada pela mensagem enviada por sua mulher: "Nao te envolvas com esse justo; porque hoje, em sonhos, muito sofri por seu respeito" (Mateus 27:19). A insistência repetida de Pilatos sobre a inocência de Jesus e o pano de fundo essencial ao segundo ponto a seu respeito ao qual os evangelistas dão enfase, a saber, engenhosas tentativas de evitar ter de tomar um partido. Ele queria evitar sentenciar a Jesus (visto acreditar ser ele inocente) e ao mesmo tempo evitar exonera-lo (visto acreditarem os dirigentes judaicos ser ele culpado).

 Como poderia Pilatos conseguir conciliar esses fatores irreconciliáveis? Vemo-lo contorcer-se a medida que tenta soltar a Jesus e pacificar os judeus, isto e, ser justo e injusto simultaneamente. Ele tentou quatro evasões.

 Primeira, ao ouvir que Jesus era da Galileia, e, portanto, estar sob a jurisdição de Herodes, enviou-o ao rei para julgamento, esperando transferir a ele a responsabilidade da decisão. Herodes, porem, devolveu Jesus sem sentença (Lucas 23:5-12).

 Segunda, ele tentou meias-medidas: "Portanto, depois de o castigar, solta-lo-ei" (Lucas 23:16, 22). Ele esperava que a multidão se satisfizesse com algo menos que a penalidade máxima, e que o desejo de sangue do povo fosse saciado ao verem as costas de Jesus laceradas. Foi uma ação mesquinha. Pois se Jesus era inocente, devia ter sido imediatamente solto, não primeiramente acoitado.

 Terceira, ele tentou fazer a coisa certa (soltar a Jesus) com o motivo errado (pela escolha da multidão).Lembrando-se do costume que o Procurador tinha de dar anistia de pascoa a um prisioneiro, ele esperava que o povo escolhesse a Jesus para esse favor. Então ele podia solta-lo como um ato de clemencia em vez de um ato de justiça. Era uma ideia astuta, mas inerentemente vergonhosa, e o povo a frustrou exigindo que o perdão fosse dado a um notório criminoso e assassino, Barrabás.

 Quarta, ele tentou protestar sua inocência. Tomando agua, lavou as mãos na presença do povo, dizendo:"Estou inocente do sangue deste justo" {Mateus 27:24). E então, antes que suas mãos se secassem, entregou-o para ser crucificado. Como pode ele incorrer nessa grande culpa imediatamente depois de ter proclamado a inocência de Jesus?

 E facil condenar a Pilatos e passar por alto nosso próprio comportamento igualmente tortuoso. Ansiosos por evitar a dor de uma entrega completa a Cristo, nos também procuramos subterfúgios. Deixamos a decisão para alguém mais, ou optamos por um compromisso morno, ou procuramos honrar a Jesus pelo motivo errado (como mestre em vez de Senhor), ou ate mesmo fazemos uma afirmacao publica de lealdade a ele, mas ao mesmo tempo o negamos em nossos corações.

 Tres expressoes na narrativa de Lucas iluminam o que, finalmente, Pilatos fez: "o seu clamor prevaleceu", "Pilatos decidiu atender-lhes o pedido", e "quanto a Jesus, entregou a vontade deles" (Lucas 23:23-25). O clamor deles, pedido deles, vontade deles: a estes Pilatos, em sua fraqueza, capitulou. Ele desejava soltar a Jesus (Lucas 23:20), mas tambem desejava "contentar a multidao" (Marcos 15:15). 

A multidão venceu. Por que? Porque lhe disseram: "Se soltas a este, não es amigo de Cesar; todo aquele que se faz rei e contra Cesar" (Joao 19:12). A escolha era entre a honra e a ambição, entre o principio e a conveniência. Ele  estivera em dificuldades com Tibério Cesar em duas ou tres ocasioes previas. Ele nao podia arcar com mais uma. Claro, Jesus era inocente. Claro, a justiça exigia a sua liberdade. 

Mas como podia ele patrocinar a inocência e a justiça se, fazendo-o, estaria negando a vontade do povo, desfeiteando os dirigentes da nação e, acima de tudo, provocando um levante, o que o levaria a perder o favor imperial? Sua consciência afogou-se nas altas vozes da racionalizacao. Ele fez concessoes por ser covarde.



Bibliografia: A cruz de Cristo - John Stott - Editora Vida



terça-feira, 4 de maio de 2021

 Davi e o santuário 1 Sm 21.1-9


Introdução

Davi está fugindo. Sabe agora, com toda certeza, que a intenção do rei Saul é de mata-lo: “Enquanto o filho de Jessé viver, nem você nem o seu reino serão estabelecidos. Agora mande chama-lo e traga-o a mim, pois ele deve morrer” (1 Sm 20.31). Agora, a cabeça de Davi está a premio. Então, Davi, está em fuga. Fugiu com a roupa do corpo, sem poder traçar um destino, correndo depressa para se salvar. Mas ele foge para onde? Para Nobe, onde há um santuário e um sacerdote.

1)    Nobe

O santuário, como o nome indica, é um lugar santo, e seu sacerdote – nesse caso Aimeleque -, tem por dever mantê-lo assim. Santo é um atributo de Deus. Por ser santo, ele é INIGUALÁVEL, é também um mistério. Deus é tão inigualável que jamais poderemos fazer uma previsão do que ele pode realizar, muito menos procurar controla-lo, seja de que modo for. 



A única forma apropriada de nos aproximarmos de Deus é com respeito e reverencia, humildade e submissa adoração. Tal aproximação é constituída por aquilo que aprendemos de Deus – bondade, verdade e beleza – ficamos também apreensivos com aquilo que está além da nossa compreensão, percebendo quão “terrível coisa é cair nas mãos do Deus vivo” (Hb 10.31). “Isso é apenas o começo de tudo o que ele faz, um mero sussurro de sua força; quem pode compreender o trovão do seu poder” (Jó26.16).

Uma advertência: “Tenham cuidado para não se recusarem a ouvir aquele que fala. Porque, se aqueles que se recusaram a ouvir o mensageiro terreno não escaparam, certamente não escaparemos se rejeitarmos aquele que nos fala do céu...Porque o nosso Deus é um fogo consumidor” (Hb 12.25,30).

 2)    Davi

Davi chega ao Santuário de Aimeleque em Nobe em busca de proteção, ele se vê, ali, imerso em santidade. O santuário é um lugar onde voltamos nossa atenção para Deus, um lugar onde é preservada e honrada a Palavra de Deus, onde recordamos os acontecimentos em que Deus se tem mostrado manifestamente ativo e poderoso.

Aimeleque parece ter ficado um tanto desconcertado, talvez até abalado, com a súbita chegada de Davi no santuário: “Aimeleque tremia de medo quando se encontrou com ele...” (1 Sm 21.1). Por que Davi está chegando tão apressado assim? E porque está sozinho? O que afinal, está acontecendo? Davi acalma o sacerdote mentindo para ele: “Está tudo bem, estou a serviço do rei. Alguns soldados meus vão encontrar comigo daqui a pouco. Precisamos de comida, o que você tem? Dê-me cinco pães, ou o que você tiver aqui”. 


Quando nos deparamos com Davi mentindo, entendemos que Davi não é uma vida ideal, mas uma vida real. Davi não é modelo para nossa moralidade, mas para aprofundar o nosso sentido da realidade humana: isso que está aí é o que acontece geralmente na grande experiência de ser humano.

Uma das corrupções mais lamentáveis, e frequente, na vida espiritual é a perda de conexão entre quem é Deus e quem somos nós. Proferimos o Nome de Deus, entramos num santuário, oramos – mas frequentemente um leve tom de falsidade começa a se insinuar, uma sutil desonestidade penetra em nossa fala e em nossa ação – o lugar religioso nos dá ocasião de usarmos a Deus, em vez de nos submetermos a ele. Tornamo-nos menos, em vez de nos tornamos mais, diante de Deus.

 3)    Pão e espada

Davi pede pão, mas o sacerdote não tem, ou melhor, não tem pão comum. Tudo o que tem são pães expostos no ritual judaico, pães consagrados – o pão da proposição -, colocados no altar como oferta ao Senhor. A cada sábado, 12 pães brancos são enfileirados sobre o altar. Cada sábado, quando 12 pães novos substituem os anteriores, aos sacerdotes é permitido comer do que é retirado do altar – mas unicamente aos sacerdotes. É ilícito a qualquer outra pessoa consumi-los (Lv 24.5-9).

 


Mas é improvável que alguém os queira. Pães velhos, de uma semana – que iria deseja-los? Aimeleque quebra as normas e lhe dá o pão. Ele discernia o “espírito das leis”, e não a letra da lei, e permitiu, assim, que Davi comesse dos pães. O pão separado para um ato solene de comunhão, semelhante à Nossa Santa Ceia, agora estava sendo arrebatado por Davi, como simples alimento e avidamente devorado. Um milênio depois, Jesus, comentando o incidente, elogiou Aimeleque por haver rompido com a letra da lei e servido ao espírito da lei, no santo lugar (Mt 12.1-5).

Davi pede depois uma arma ao sacerdote. Continua mentindo a Aimeleque a respeito da sua verdadeira situação de fugitivo: “Não trouxe minha espada nem qualquer outra arma, pois o rei exigiu urgência” (1 Sm 21.8). Não haveria algo que pudesse usar? Havia a espada de Golias, que o próprio Davi havia trazido do vale de Elá, alguns anos antes, como troféu de guerra. 


Era na verdade, uma lembrança de uma grande ato salvifico “Não há nenhuma outra, senão a espada de Golias”. Davi não hesitou: “Não há outra melhor; dê-me essa espada” (1 Sm 21.9). O santuário além de ser um lugar destinado a meditação, reflexão é, também, um lugar para receber ajuda de emergência: alimento para jornada e uma espada para a luta.

 Pão e espada estão particularmente associados, nas escrituras, à Palavra de Deus. “Não somente de pão viverás o homem, mas de toda Palavra que procede da boca de Deus” (Mt 4.4) “A Palavra de Deus é viva e poderosa. É mais cortante que qualquer espada de dois gumes, penetrando entre a alma e o espírito, entre junta e medula, e trazendo à luz até os pensamentos e desejos mais íntimos” (Hb 4.12). PRECISAMOS DE UM SANTUÁRIO PARA ONDE POSSAMOS CORRER, A FIM DE NOS SUSTENTARMOS COM O INDISPENSÁVEL À VIDA – DEUS E A SUA PROVISÃO, PARA QUE POSSAMOS VIVER NUM MUNDO PERIGOSO E HOSTIL À NOSSA FÉ.

4)    Doegue

Davi não era o único visitante do santuário de Nobe naquele dia. Havia ali outro homem, chamado Doegue o edomita. O nome Doeg soa como em seu original como “preocupação”. Ele é descrito no texto como “chefe dos pastores de Saul” (1 Sm 21.7). Ou, “chefe da guarda do Palácio de Saul”. Ele, sem dúvida, conhecia muito bem Davi. Quase sempre que Davi estava com o rei Saul, certamente Doegue estava por lá.

Doegue estava ali no santuário, naquele dia, para alguma cerimonia religiosa. Estava “cumprindo seus deveres perante o Senhor”; talvez participando de algum rito de penitencia ou purificação. Era possivelmente uma obrigação religiosa.

Ele observou atentamente cada ação de Davi. Ouviu Davi contar mentiras no santuário ao sacerdote de Deus. Viu Davi pegar e comer o pão cuidadosamente resguardado pela lei mosaica exclusivamente para uso espiritual. Viu Davi tomar para si a famosa espada de Golias – a peça de museu que nutria o orgulho nacional e carrega-la consigo para o mundo lá fora. Oculto nas sombras, observou tudo o que Davi fazia, registrando-o na memória para usar depois. 



 Um homem como Doegue, santuário não é lugar para intensificação das atividades do dia-a-dia, mas para passar um verniz em sua justiça pessoal, que dará ao seu cotidiano um polimento. Para Doegue, Santuário, não é um lugar para expor as fraquezas, mas, sim, obtém-se uma cobertura. Ele ouviu as mentiras de Davi, viu Davi tomar o pão e a espada e, sem duvida, sentiu-se um tremendo privilegiado por estar ali naquele dia, entendendo que tinha nas mãos dados, informações, que lhe seriam uteis para a diminuição de Davi e sua própria ascensão e enriquecimento na corte.

Conclusão:

Coisas maravilhosas acontecem no santuário. Quando em nossas fugas paramos num santo lugar, ali descobrimos que há mais sobre a vida do que aquilo que nossas circunstancias e sentimos nos fazem ver. Mas, coisas terríveis também acontecem nos santuários. Podemos utilizar o culto para nos isolar das pessoas que desprezamos, ou cultivar um sentimento de superioridade, ou obter uma maneira de alcançar vantagem. Quando entramos num santuário, podemos sair melhores, ou piores. 



terça-feira, 27 de abril de 2021

 Davi entre amor e ódio. 1 Samuel 18.1-12 



Introdução:

Elias, foi um grande profeta que desafiou os profetas de Baal. Deus lhe deu uma grande vitória, fazendo cair fogo no altar, e, logo em seguida, muito chuva, depois de três anos e meio sem chuva. Êxtase total! No entanto, no dia seguinte, Elias foge em direção ao monte de Deus, com medo de ser morto por Jezabel. Aqui, Davi, venceu um terrível gigante – Golias -, um gigante temido, durante 40 dias, ele zombou de todos, mas, agora, é um gigante morto. No entanto, nos dias e anos que seguem, ele fugirá, como cão, da presença do rei Saul.

1)    Saul

Depois da morte de Golias, a primeira coisa que aconteceu foi que Saul não quis deixar que Davi voltasse às suas ovelhas “...não lhe permitiu que tornasse para casa de seu pai... saia aonde quer que Saul o enviava” (1 Sm 18.2). Davi era o campeão dos campeões, o matador de gigante. Quatro vezes no mesmo capitulo lemos que Davi prosperou ou que se comportou com prudência.

Até que um dia, Davi voltando de suas batalhas “...mulheres de todas as cidades saíram ao encontro do Rei Saul. Cantavam e dançavam de alegria, com tamborins e címbalos. Esta era a canção: “Saul matou milhares, e Davi, dezenas de milhares!” O hebraico muitas vezes junta termos, e a palavra “milhares” literalmente é “miríades”, ou seja, muitíssimas pessoas.

Saul entende o fato como um menosprezo. Somos informados  de que “Saul ficou muito irritado...” Por que? Ele ponderou: “...atribuíram a Davi dezenas de milhares, mas a mim apenas milhares. O que mais lhe falta senão o reino?” Saul está nitidamente com inveja de Davi e passa a vigiá-lo de perto “Dai em diante Saul olhava com inveja para Davi” (1 Sm 18.9).

  O processo em direção ao ódio começa com a sua ira por causa do cântico nos versículos 8 e 9. “No dia seguinte, um espírito mandado por Deus apoderou-se de Saul”. Saul acabou se tornando um homem irritado, sem paz, e sujeito a manifestações demoníacas – ABISMOS DO MAL EM SUA MENTE E EMOÇÕES.

“Enquanto Davi tocava harpa”. Portanto, Davi e sua musica eram uma presença de cura e restauração nos momentos oscilantes de Saul. Mas, neste dia, em vez de cura, surge o ódio. Saul arremete sua lança na direção de Davi, gritando: “Encravarei Davi na parede” (1 Samuel 18.11). Davi, como rapidez de um menino, vê o dardo e se desvia. A lança acerta a parede, apenas alguns centímetros da cabeça de Davi. Saul tenta mais uma vez. E de novo Davi escapa. 



Dá pra entender? Davi venceu o gigante Golias, trouxe cura ao espirito atormentando de Saul, aquietando a turbulência no coração perturbado do rei. Era tudo de que a nação precisava, era tudo de que o rei necessitava. E, ao que parece, fazia todas essas coisas de maneira discreta e despretensiosa. Em troca, de haver feito boas obras, quase foi morto. O Salmo 7 é a primeira oração nos Salmos, que nos oferece uma expressão dessa experiência de inocência ofendida:

“Senhor, meu Deus, em ti me refugio; salva-me e livra-me de todos os que me perseguem,

Para que, como leões, não me dilacerem nem me despedacem, sem que ninguém me livre...

Deus justo, que sonda as mentes e os corações, dá fim à maldade dos ímpios e ao justo dá segurança. O meu escudo está nas mãos de Deus, que salva o reto de coração” (Sl 7.1,2,9,10).

 2)    Davi e Jônatas

“Sucedeu que, acabando Davi de falar com Saul, a alma de Jônatas se ligou com a de Davi; e Jônatas amou, como à sua própria alma. Jônatas e Davi fizeram aliança; porque Jônatas o amava como à sua própria alma” (1 Sm 18.1-3).

“Tornou-se um em espírito com Davi, e Jônatas o amou como a si próprio”. “Um em espírito” é literalmente “costurados um ao outro”, a mesma palavra é usada para descrever o relacionamento de Jacó com Benjamim, seu filho predileto. Somos informados de que a vida de Jacó estava “fortemente ligada à vida do menino” (Gn 44.30). E o mesmo acontecerá com Jônatas e Davi.

Vivemos em uma sociedade egocêntrica. Já nos relacionamos com centenas de pessoas que, ao olhar para nós, começam a calcular a nossa utilidade, o que poderão obter de nós. Temos conhecido centenas de pessoas que, mal nos veem, fazem de nós um rápido julgamento, classificando-nos então em determinada categoria, para que não tenham de se relacionar conosco como pessoas. E, quando nos relacionamos com tais pessoas, realmente nos tornamos menores!

Aqui, com Davi e Jônatas, reconheceremos alguns princípios da verdadeira amizade:

Primeiro, o amigo intimo está disposto a sacrificar-se.Despojou-se Jônatas da capa que vestia e a deu a Davi, como também armadura, inclusive a espada, o arco e o cinto” (1 Sm 18.4). A coisa mais importante que uma pessoa pode fazer por outra é verificar o que existe de mais profundo no outro; despender tempo, e ter discernimento para ver o que há no interior do outro, quem a pessoa realmente é, e, então reafirmar isso pelo reconhecimento e encorajamento. 



Segundo, o amigo intimo é um defensor leal perante outros. Ele não é amigo dos bons tempos. Não vai falar conta você quando não estiver  por perto.

 A passagem diz: “Jônatas falou bem de Davi a Saul, seu pai” (1 Sm 19.4). Isso é muito importante porque Saul não era só o rei e pai de Jônatas, mas também, a essa altura, Saul decidira ser inimigo de Davi “Jônatas disse a Saul: Não peque contra seu servo Davi, porque ele não pecou contra ti, e os teus feitos para contigo tem sido mui importantes. Arriscando ele a sua vida, feriu os filisteus, e efetuou o Senhor grande livramento a todo Israel; tu mesmo o viste e te alegraste; por que, pois pecarias contra sangue inocente matando a Davi sem causa?” (1 Sm 19.4-5). 

Terceiro, os amigos íntimos dão ao outro completa liberdade para serem quem são. “Levantou-se Davi do lado do sul, e dobrou-se rosto em terra três vezes; e beijaram-se um ao outro, e choraram juntos. Davi, porém, muito mais” (1 Sm 20.4).  Quando um bom amigo está sofrendo, deixe que sofra. Se um bom amigo tem vontade de chorar, deixe que chore. Se um bom amigo quer reclamar, ouça. O amigo intimo não se afasta, fica sempre ao seu lado. 



Quarto, o amigo intimo é uma fonte constante de encorajamento. “Vendo, pois, Davi, que Saul saia a tirar-lhe a vida, deteve-se no deserto de Zife, em Horesa. Então se levantou Jônatas, filho de Saul, e foi para Davi, a Horesa e lhe fortaleceu a confiança em Deus” (1 Sm 23.15-16).  Davi está no deserto, assustado e angustiado. Então, Jônatas vai até lá, no deserto e lhe encoraja: “Sei o que é isso. Um dia melhor vai chegar, mas agora estou ao seu lado, para o que der e vier”.


Conclusão:

Sem Jônatas, Davi estaria correndo o risco de abandonar sua vocação e retornar à sua simples vida de cuidar de ovelhas, ou desenvolver um espírito mórbido de retaliação, que o levaria a querer acertar contas com o homem que desprezou o que de melhor nele havia. Ele não fez nada disso, tinha a unção de Deus em sua vida!