sábado, 17 de setembro de 2011

A violencia contra a casa de Deus.

violencia contra a casa de Deus Ml 3:6-12



A VIOLENCIA CONTRA DEUS – Ml 3:6-12.

Introdução.

Por quatro vezes encontramos a expressão “diz o Senhor dos exércitos” (v.7,10,11 e 12). Deus afirma sua imutabilidade: “Pois eu, Iavé, não mudo” ((Tg 1:17). Ele é o Deus que é. Mais do que apenas existir, Ele é.


1) FILHOS DE JACÓ.

· “Vós filhos de Jacó”. A comunidade estava deixando de contribuir com o dizimo. O profeta os censura de tentarem trapacear com Deus como fez Jacó com Esaú (Gn 25:29-34). Subtende-se: ser o filho daquele que suplantou e enganou se irmão (cf.v.8,9). Ele, Iavé, não mudou. O povo mudou. Nós também mudamos. Mas Ele permanece o mesmo (II Tm 2:13).

2) A Inconsciência.

· “Quando foi que deixamos o Senhor?”. O pior pecado é a inconseqüência de achar que não se está em pecado. Sim, pior que o pecado é o cinismo de desdenhar o chamado ao arrependimento e obstinar-se em continuar vivendo erradamente. A Insensibilidade espiritual é uma desgraça para o homem.

· “Roubará o homem a Deus? Todavia vós me roubais e dizeis: Em que te roubamos? O termos hebraico para “roubar” é qâbhâ que tem a idéia de “tomar a força”. Era um roubo planejado, intencional.(Pv 22:23). A subtração do dizimo é vista por Deus como uma violência contra ele. Alguns traduzem “roubará” por “suplantará”. Fica então “Suplantará o homem a Deus?

3) Dificuldade econômica.

· Os versículos 9-11 mostram que os tempos eram difíceis. Era uma ocasião de crise econômica. Não seria desculpável, neste momento, suprimir o dizimo e cuidar de si mesmo? (Ageu 1:6).“As pessoas sem dúvida, usam a dificuldade dos tempos como uma desculpa para a sua frouxidão nos compromissos, mas o profeta interpreta isso como se fosse o sinal exterior de uma desprezo interno por Deus. (II Co 8:2-3).

· No versículo 11 encontramos a explicitação do juízo divino sobre Judá: seca, crise econômica e fome. “Podemos tentar defraudar a Deus, mas no final das contas, estaremos defraudando a nós mesmos”(Obadias v.15).

4) Trazeis todos os dízimos à casa do tesouro.

· Ananias e Safira trouxeram apenas uma parte, e o Senhor os castigou, não tanto por terem trazido apenas uma parte, mas por terem querido dar a impressão de que deram tudo. Os dízimos devem ser trazidos “para que haja mantimento”. O hebraico traz tereph, “comida”. Os dízimos e as contribuições foram instituídos no tempo de Moises e eram muitas vezes uma barômetro do estado espiritual em que a nação se encontrava (Lv. 27:30; Dt 14:22). No tempo de Neemias estava acontecendo o mesmo problema (Nemias 13:10).

CONCLUSÃO: “Fazei prova de mim”. Deus anuncia dilúvios de bênçãos para o fiel. “abrirei as janelas do céu e derramarei uma benção tão grande que não terão lugar onde guardá-la”. “todas as nações vos chamarão bem-aventurados” (makaryoy). “Sereis uma terra deleitosa”. O mundo vê a benção de Deus na igreja.

Hábitos que transformam - Pastor Ricardo Barbosa

Em 1989, o reverendo John Stott veio ao Brasil para falar num dos congressos da VINDE — Visão Nacional de Evangelização. Depois de uma de suas palestras, nos reunimos para conversar com ele. Era um grupo pequeno de jovens pastores, sentados em torno de um dos maiores expositores bíblicos da nossa geração, perto de completar 70 anos. A conversa seguiu animada. Ele nos deu liberdade para perguntas pessoais e, entre outras, não faltaram aquelas sobre o porquê de não se casar.



Porém, de todas, guardei apenas a resposta que ele deu quando lhe perguntaram sobre a razão do seu longo ministério tão frutífero. Ele respondeu: “Leio a Bíblia e oro todos os dias, vou à igreja todos os domingos e nunca falto à celebração da Eucaristia”. A resposta foi surpreendente por sua simplicidade.



Sabemos que ler a Bíblia e orar todos os dias, ir aos cultos e participar da Ceia nunca foram, por si só, sinais confiáveis de espiritualidade, muito menos um caminho seguro para a maturidade. Muitas pessoas fazem isso por puro legalismo. Por outro lado, sabemos também que não fazer nada disso é um caminho seguro e certo para o fracasso espiritual.



O doutor James Houston, criticando o abandono da leitura devocional em nossos dias por uma literatura funcional e pragmática, afirma: “Os hábitos de leitura do chiqueiro não podem satisfazer a um filho e aos porcos ao mesmo tempo”. Ao usar a imagem da Parábola do Filho Pródigo, ele nos chama a atenção para o risco de nos acostumarmos com a vida do chiqueiro. Para Houston, as práticas devocionais nos ajudam a perceber que existe algo maior e mais excelente na vida de comunhão com o Pai.



O reverendo A. W. Tozer (1897-1963) escreveu um artigo afirmando que “Deus fala com o homem que mostra interesse”, e que “Deus nada tem a dizer ao indivíduo frívolo”. Mais do que cultivar o hábito de ler a Bíblia, orar e participar do culto, o que na verdade fazemos quando cultivamos estas práticas devocionais é demonstrar o interesse vivo que temos por Deus e por sua Palavra.



Da mesma forma como a vida necessita do básico (ter o suficiente para comer e vestir, onde descansar), a natureza da vida espiritual repousa sobre o que é essencial (Bíblia, oração, comunhão, adoração e missão). São esses hábitos básicos que nos colocam no lugar onde podemos experimentar a graça de Deus e crescer.



Há hoje muita oferta para a vida e para a espiritualidade. A sedução do supérfluo despreza o essencial. Vivemos o grande perigo de negar o básico, achando que podemos experimentar a graça de Deus e provar sua bondade e amor sem nos aquietar e deixar que sua Palavra molde nosso caráter, que a oração fortaleça nosso espírito e que a comunhão nos sustente em nossa identidade como povo de Deus.



As disciplinas espirituais básicas cultivadas pelo reverendo Stott ao longo de sua vida formaram seu caráter como cristão. Nada pode substituir a prática diária da oração nem a leitura devocional das Escrituras. Nada substitui o valor do culto comunitário nem o mistério da eucaristia. O cultivo destas disciplinas requer de nós não apenas tempo e perseverança, mas também humildade e coragem para sermos transformados pelo poder de Deus.



Deus não nos chamou para a realização pessoal, mas para a comunhão pessoal e íntima com ele e o próximo. Deus não nos chamou para sermos operários agitados do seu reino, mas para amá-lo e amar ao próximo de todo o coração. Os hábitos devocionais libertam-nos da “normalidade” do chiqueiro e nos transportam para uma existência de comunhão com Deus que enobrece a vida. São estes hábitos que preservam nossos olhos voltados para o alto, para que, aqui na terra, nossa existência ganhe a grandeza dos ideais divinos.



As práticas devocionais fazem parte do processo formativo da alma diante de Deus. Precisamos cultivá-las a fim de permanecermos em sintonia com o reino de Deus, que molda o nosso caráter em Cristo. É a palavra de Deus que devolve a vida aos “ossos secos” da agitação moderna.

quarta-feira, 7 de setembro de 2011

Livro base: o discípulo radical: Jonh Stott.


QUEM SOMOS NÓS? 1 Pe 2.1-17.



Introdução: o antigo Duque de Windsor, que por um curto período de tempo foi o Rei Eduardo 8, morreu em Paris em maio de 1972. Alguns documentos foram encontrados, incluindo partes que mostravam Eduardo 8 sendo questionado a respeito de sua educação. Ele disse: “...Quando eu fazia algo errado, ele às vezes me advertia dizendo: “meu querido menino, você deve se lembrar de quem é”. A Pergunta é: quem somos nós?

1)    Bebês (1 Pe 1:2-3).

 O novo nascimento é uma mudança profunda, interior e radical, realizada pelo Espírito Santo em nossa personalidade humana, que nos concede um novo coração e uma nova vida e nos faz uma nova criatura (João 3:7). O problema é que não emergimos do novo nascimento com o entendimento e o caráter de um cristão maduro, nem com asas angelicais totalmente desenvolvidas, mas “crianças recém nascidas”.

2)    Pedras (1 Pe 2:4-8).
 A segunda metáfora (imagem) é a de pedras vivas. Ele sai do mundo da Biologia (nascimento) e vai para o mundo da arquitetura. Um prédio em construção é feito de pedras e não temos dificuldade de reconhecer que é uma igreja. A Igreja do Deus vivente, o povo de Deus. Na verdade, nada pode destruir a igreja de Deus. Jesus prometeu em Mateus 16:18: “as portas do inferno...”. Como, então, nos unimos à igreja? Ingressamos à expressão visível, externa na igreja pelo batismo (1 Pe 2:4).
  
3)    Sacerdotes (v.9).
 Agora ele chega à terceira metáfora e nos compara a sacerdotes santos cujo dever é adorar a Deus. Pedro escreve que Deus nos fez tanto “sacerdócio santo” (v.5) como “sacerdote real” (v.9). O que o apostolo quer dizer? Na época do AT, os sacerdotes israelistas possuíam dois privilégios: 1) eles desfrutavam do acesso a Deus. Apenas o sacerdote tinha a permissão para entrar no templo, e somente o sumo sacerdote podia entrar no santo dos santos e – apenas no dia da propiciação; 2) O segundo privilégio era o oferecimento de sacrifícios a Deus. Por intermédio de Cristo, todos nós gozamos do acesso a Deus (Hb 10:19-22) e, por meio de Cristo, todos nós oferecemos a Deus os sacrifícios espirituais da nossa adoração.

4)    Povo de Deus.
Somos a “propriedade exclusiva de Deus” (Ex 19:5-6), quando Deus diz ao povo de Israel, que tinha acabado de ser redimido do Egito, que se eles mantivessem seu pacto, obedecendo aos mandamentos, seriam sua propriedade mais rica, sua nação escolhida de entre todas as nações da terra, uma nação santa. Mas por que Deus nos escolheu? Para sermos testemunhas.


5)    Estrangeiros (v.11).
 As palavras gregas são interessantes. “forasteiro” é aquele que não tem direitos no lugar onde vive; “peregrino” é aquele que não tem lar. Portanto, agora eles agora eram cidadãos de dois países e chamados à santidade.

6) Servos (1 Pe 2:12-17).
Pedro incentiva os leitores a viver de tal forma entre os pagãos que eles possam ver suas boas obras, a submeter-se às autoridades seculares.CONCLUSÃO: crianças recém-nascidas (crescer); pedras vivas (comunhão); sacerdotes (adoração); povo de Deus (testemunhas); estrangeiros (santidade) e servos (cidadania).


Fonte: o discipulo radical.

sábado, 3 de setembro de 2011

A morte de Jesus na cruz - Santa Ceia do Senhor - quebrantamento.

Descrição da morte de Jesus na cruz. 



A prova médica: Alexander Metherel

A tortura anterior à cruz

— O senhor poderia traçar um quadro do que aconteceu com Jesus? — pedi.
Ele limpou a garganta.
— Tudo começou logo depois da última ceia — ele disse. — Jesus foi com seus discípulos para o monte das Oliveiras, especificamente ao jardim de Getsêmani. Ali, você deve lembrar, ele orou a noite inteira. Nesse processo, ele estava antevendo os eventos que ocorreriam no dia seguinte. Como sabia quanto sofrimento teria de suportar, foi bastante natural que experimentasse muito estresse psicológico.
Levantei a mão para interrompê-lo.

— Espere. É aí que os céticos têm espaço aberto hoje em dia. Os evangelhos nos contam que ele começou a suar sangue durante esse tempo. Diga-me, isso não é um mero produto da imaginação frutífera de alguém? Isso não põe em xeque a exatidão dos escritores dos evangelhos? 


Imperturbável, Metherell balançou a cabeça.
— De jeito nenhum — replicou. — Essa é uma condição médica conhecida, chamada hematidrose. Não é comum, mas está ligada ao alto grau de estresse psicológico. O que acontece é que a ansiedade extrema ocasiona a liberação de produtos químicos que rompem os vasos capilares nas glândulas sudoríparas. Em conseqüência, essas glândulas sangram um pouco, e o suor brota misturado com sangue. Não estamos falando de muito sangue, só uma quantidade bem pequena.
Já um tanto satisfeito, ampliei a pergunta.

— Isso tem algum outro efeito sobre o corpo?

— O efeito disso é que a pele fica muito frágil, de modo que, quando Jesus foi açoitado pelo soldado romano no dia seguinte, sua pele devia estar muito, muito sensível.

Muito bem, pensei, lá vamos nós. Preparei-me para as imagens assustadoras que eu sabia que surgiriam na minha mente. Eu tinha visto muitos corpos de pessoas mortas como jornalista: vítimas de acidentes de trânsito, de crimes, de tiroteios entre gangues. Contudo, é especialmente horrível ouvir sobre alguém que foi intencionalmente brutalizado por executores decididos a causar o máximo de sofrimento.

— Diga-me — retomei a conversa —, como foi esse açoitamento?

Metherell não tirou os olhos de mim enquanto falava.
— Os açoitamentos romanos eram famosos por serem terrivelmente brutais. O comum é que consistissem em 39 chicotadas, mas com freqüência esse número era ultrapassado, dependendo do humor do soldado que as aplicava. O soldado usava um chicote de tiras de couro trançadas, com bolinhas de metal amarradas. Quando o açoite atingia a carne, essas bolinhas causavam hematomas ou contusões profundas, que se abriam nas chicotadas seguintes. Havia também, presos ao açoite, pedaços afiados de ossos, que cortavam a carne profundamente. As costas ficavam tão maltratadas que às vezes os cortes profundos chegavam a deixar a espinha exposta. As chicotadas cobriam toda a extensão do dorso, desde a nuca até o traseiro e as pernas. Era terrível. 


Metherell fez uma pausa.
— Continue — eu o incentivei.
— Um médico que estudou os castigos infligidos pelos romanos disse: "À medida que o açoitamento continuava, as lacerações atingiam os músculos inferiores que seguram o esqueleto, deixando penduradas tiras de carne ensangüentada". Um historiador do século II de nome Eusébio descreveu um açoitamento nestes termos: 'As veias do sofredor ficavam abertas, e os músculos, tendões e órgãos internos da vítima ficavam expostos". Sabemos que algumas pessoas morriam desse tipo de suplício antes de chegar a ser crucificadas. No mínimo, a vítima sofria dores terríveis e entrava em choque hipovolêmico.

Metherell usara um termo médico que eu não conhecia.
— O que quer dizer choque hipovolêmico? — perguntei.
— Hipo significa "baixo", vol refere-se a "volume" e êmico significa "sangue"; portanto, choque hipovolêmico quer dizer que a pessoa está sofrendo os efeitos de perder grande quantidade de sangue — explicou o médico. — Isso ocasiona quatro coisas. Em primeiro lugar, o coração se esforça para bombear mais sangue, mas não tem de onde; em segundo lugar, a pressão sangüínea cai, causando desmaio ou colapso; em terceiro lugar, os rins param de produzir urina, para conservar o volume que sobrou; e em quarto lugar a pessoa fica com muita sede, pois o corpo pede por líquidos para repor o sangue que perdeu.

— O senhor vê evidências nos evangelhos de que isso ocorreu?

— Sim, certamente — ele respondeu. — Jesus estava em choque hipovolêmico quando se arrastou pela rua que subia para o lugar de execução no Calvário, carregando a viga horizontal da cruz. Ele acabou caindo, e o soldado romano ordenou a Simão que carregasse a cruz. Mais tarde lemos que Jesus disse: "Tenho sede", e uma esponja com vinagre foi estendida a ele. Por causa dos efeitos terríveis do açoitamento, não há dúvida de que Jesus já se encontrava em condição crítica mesmo antes de os pregos atravessarem suas mãos e pés.
  
A agonia da cruz

Por mais desagradável que fosse a descrição do açoitamento, eu sabia que um testemunho ainda mais repugnante estava por vir. Os historiadores são unânimes em dizer que Jesus sobreviveu à flagelação daquele dia e foi até a cruz — onde o processo era fatal.

Em nossos dias, quando criminosos são imobilizados e executados com injeções de veneno, ou por meio de choque elétrico, ou com um tiro na nuca, as circunstâncias estão todas sob controle. A morte vem de modo rápido e previsível. Médicos acompanham e certificam cuidadosamente a morte da vítima. Bem próximas, testemunhas avaliam tudo do começo ao fim.

No entanto, que certeza se tinha da morte por essa forma cruel, lenta e bastante inexata de execução chamada crucificação? Na verdade, a maioria das pessoas não sabe como a cruz mata suas vítimas. E sem um médico preparado para atestar oficialmente que Jesus morrera, poderia ele ter passado pela experiência, brutalizado e ensangüentado, mas ainda vivo?

Comecei a desembrulhar esses assuntos.
— O que aconteceu quando Jesus chegou no lugar da crucificação? — perguntei.
— Ele deve ter sido deitado de costas, para que suas mãos pudessem ser pregadas em posição estendida na viga horizontal. Essa viga era chamada patibulum, até então separada da viga vertical, que estava fixada no chão de modo permanente.
Eu tinha dificuldades para visualizar isso; precisava de mais detalhes.

— Pregado com quê? — perguntei. — Pregado onde?

— Os romanos usavam pregos grandes, com cerca de 15 centímetros, bem afiados. Com eles, atravessavam os pulsos — Metherell disse, indicando uns dois dedos abaixo do seu pulso. 


— Espere aí — interrompi. — Eu pensava que os pregos haviam furado suas mãos. Isso é o que mostram todas as pinturas. Na verdade, essa se tornou uma maneira padrão de representar a crucificação.

— Não, eles atravessavam os pulsos — Metherell repetiu. Essa era uma posição firme que prendia a mão. Se os pregos furassem apenas a palma da mão, o peso do corpo a rasgaria e ele teria caído da cruz. Por isso perfuravam os pulsos, que eram considerados parte da mão, na linguagem da época. E é importante entender que o prego atravessava o lugar por onde passa o nervo central. Esse é o maior nervo que vai até a mão, e era esmagado pelo prego.

Como eu só tenho um conhecimento rudimentar da anatomia humana, não tinha certeza se havia entendido.

— Que tipo de dor isso teria causado?

— Deixe-me dizê-lo da seguinte maneira. Você conhece o tipo de dor que sente quando bate o cotovelo e leva um "choque"? Na verdade, você acertou um nervo, chamado ulna. A dor é muito grande quando você o acerta em cheio. Bem, imagine este nervo sendo apertado e esmagado por um alicate — ele disse, enfatizando a palavra apertado enquanto girava na mão um alicate imaginário. — A sensação seria semelhante à que Jesus experimentou.

Estremeci diante da idéia e me encolhi na cadeira.

— A dor era totalmente insuportável — Metherell continuou. — Na verdade, ela está além da descrição por palavras. Foi necessário inventar uma nova palavra: dor excruciante. Essa palavra significa literalmente "da cruz". Veja só: foi necessário criar uma nova palavra, porque não havia nenhuma na língua que pudesse descrever a angústia terrível provocada pela crucificação. Depois de ter as mãos pregadas na viga transversal, Jesus foi erguido para que esta pudesse ser colocada sobre a viga vertical, e seus pés foram pregados nesta. Também os nervos dos pés foram esmagados, e a dor era semelhante à das mãos. 


Nervos esmagados e cortados certamente causavam dor suficiente, mas eu precisava saber que efeito o fato de estar pendurado teria sobre Jesus.

— O que essa posição causa ao corpo? Metherell respondeu:
— Em primeiro lugar, os braços ficam imediatamente esticados, os ombros saem do lugar, as juntas se distendem 15 centímetros. Dá para calcular isso com equações matemáticas simples.

— Isso cumpriu a profecia do Antigo Testamento, Salmos no salmo 22, que predisse a crucificação de Jesus séculos antes de ela ocorrer: "Todos os meus ossos estão desconjuntados".
  
A causa da morte
Metherell conseguira mostrar — quase visivelmente — o grande sofrimento suportado até o início do processo de crucificação. Mas eu precisava saber o que tira a vida de uma vítima desse modo de execução, porque essa é a questão crucial para determinar se uma morte pode ser encenada ou falsificada. Por isso coloquei a questão da causa da morte de modo direto para Metherell.

— Uma vez que a pessoa está pendurada em posição vertical — esclareceu ele —, a crucificação é, em essência, uma lenta agonia até a morte por asfixia. A razão para isso é que a tensão dos músculos e do diafragma deixa o peito na posição de inalar. Para exalar, a pessoa tem de firmar-se sobre os pés, para aliviar por um pouco a tensão dos músculos. Ao fazer isso, o prego rasga o pé, até se prender contra os ossos do tarso.
 Depois de conseguir exalar, a pessoa pode relaxar e inalar novamente. Depois tem de empurrar-se novamente para cima, para exalar, esfregando suas costas esfoladas contra a madeira áspera da cruz. Isso se repete até que a exaustão total toma conta, e a pessoa não consegue mais se erguer para respirar. Ao diminuir a respiração, ela entra no que é chamado acidose respiratória: o dióxido de carbono no sangue é dissolvido em ácido carbônico, fazendo a acidez do sangue aumentar. Isso faz o coração bater de modo irregular. Quando seu coração começou a bater irregularmente, Jesus deve ter entendido que estava chegando a hora da morte, e disse: "Pai, nas tuas mãos entrego o meu espírito". Depois morreu de ataque cardíaco.

Essa foi a explanação mais clara que eu já ouvira da morte por crucificação; Metherell, porém, ainda não tinha terminado.

— Um pouco antes de morrer, e isso também é importante, o choque hipovolêmico deve ter feito o coração bater rapidamente por algum tempo, o que teria contribuído para fazê-lo falhar, resultando no acúmulo de líquido na membrana em torno do coração, chamado efusão pericardial, bem como em torno dos pulmões, chamado efusão pleural.

— Por que isso é importante? — eu quis saber.
— Por causa do que aconteceu quando o soldado romano se aproximou e, tendo quase certeza de que Jesus estava morto, confirmou a morte enfiando uma lança em seu lado. Provavelmente foi o lado direito; não temos certeza, mas pela descrição deve ter sido, entre as costelas. Ao que parece, a lança atravessou o pulmão direito e o coração, e, quando foi tirada, saiu um líquido — a efusão que mencionei. Esse líquido tem aparência transparente, como água, e é seguido de um grande volume de sangue, como João, testemunha ocular, descreveu em seu evangelho.

João provavelmente não fazia nenhuma idéia da razão por que vira sangue e esse líquido transparente fluir. Certamente não era o que uma pessoa sem formação como ele poderia esperar. Mas sua descrição é coerente com o que a medicina moderna esperaria que acontecesse. A princípio, isso parecia dar credibilidade a João como testemunha ocular; todavia, podia haver uma grande fraude em tudo isso.
Abri minha Bíblia e virei as páginas até achar João 19.34.

— Espere um minuto, doutor — protestei. — Lendo com atenção o que João disse, vemos que ele viu sair "sangue e água": ele pôs as palavras intencionalmente nessa ordem. Porém, segundo o que o senhor disse, o líquido transparente teria saído primeiro. Portanto, temos uma discrepância importante aqui.
Metherell sorriu levemente.

— Não sou um estudioso do grego — ele respondeu —, porém, de acordo com pessoas que são, a ordem das palavras no grego antigo não era determinada necessariamente pela seqüência dos fatos, mas por sua importância. Isso quer dizer que, como houve bem mais sangue do que água, para João faria sentido mencionar o sangue primeiro.

Tive de concordar, mas anotei mentalmente o lembrete de verificar isso mais tarde.
— A essa altura, qual deveria ser a condição de Jesus?
O olhar de Metherell cruzou com o meu. Ele respondeu com firmeza e autoridade:
Não havia absolutamente dúvida de que Jesus estava morto.

 Resposta aos céticos
A declaração do dr. Metherell pareceu-me bem comprovada pelas evidências. Mas havia mais alguns detalhes dos quais eu queria falar — bem como de um ponto fraco no relato dele que poderia minar a credibilidade da narrativa bíblica.

— O evangelho diz que os soldados quebraram as pernas dos dois criminosos que foram crucificados com Jesus — eu disse. — Por que eles teriam feito isso?

— Se quisessem apressar a morte, e, com o sábado e a Páscoa se aproximando, os líderes judeus com certeza queriam acabar com tudo antes do pôr-do-sol os romanos usariam o cabo de aço de uma lança romana curta para partir os ossos inferiores das pernas das vítimas. Isso as impediria de empurrar-se para cima com as pernas para respirar, e a morte por asfixia ocorreria em questão de minutos. É claro, o Novo Testamento nos diz que as pernas de Jesus não foram quebradas, porque os soldados já tinham verificado que ele estava morto e apenas usaram a lança para confirmá-lo. Isso cumpriu outra profecia do Antigo Testamento sobre o Messias, de que seus ossos não seriam quebrados.

Interrompi mais uma vez.
— Algumas pessoas tentaram lançar dúvidas sobre os relatos dos evangelhos atacando a história da crucificação. Por exemplo, um artigo do Harvard Theological Review concluiu muitos anos atrás que há "surpreendentemente poucas evidências de que os pés de alguém que era crucificado fossem perfurados". Em vez disso, dizia o artigo, as mãos e pés da vítima eram amarrados à cruz com cordas. O senhor não concorda que isso cria problemas de credibilidade para o relato do Novo Testamento?

O dr. Metherell veio para a frente até ficar sentado bem na ponta da poltrona.
— Não, não acho — ele replicou — porque a arqueologia agora comprovou que o uso de pregos era comum naquela época apesar de admitir que às vezes se usavam cordas.

— O que foi descoberto? — continuei.
— Em 1968, os arqueólogos encontraram em Jerusalém os restos mortais de cerca de 36 judeus que tinham morrido durante a revolta contra Roma por volta do ano 70 d.C. Uma das vítimas, cujo nome parece ter sido Yohanan, fora crucificada. Veja que encontraram um prego de 17 centímetros ainda enfiado em seu pé, com pedaços de madeira de oliveira da cruz ainda presos na ponta. Isso foi uma confirmação arqueológica excelente de um detalhe-chave na descrição da crucificação dos evangelhos.

Um a zero, pensei.
— Ainda outro ponto de discussão gira em torno da capacidade dos romanos em determinar se Jesus estava morto — acrescentei. —Era um tempo de conhecimentos médicos e anatômicos muito rudimentares; como podemos estar certos de que eles não se enganaram ao declarar que Jesus não vivia mais?

— Posso lhe garantir que esses soldados não freqüentaram uma faculdade de medicina. Mas lembre-se de que eles eram especialistas em matar pessoas — esse era o trabalho deles, e o faziam muito bem. Eles sabiam sem sombra de dúvida quando alguém estava morto, e isso de fato não é tão difícil de determinar.
Além disso, se de algum modo um prisioneiro escapasse, o soldado responsável era morto no lugar dele, o que lhe servia de grande incentivo para certificar-se com segurança de que cada vítima estava morta antes de ser retirada da cruz.


O último argumento
Recorrendo à história e à medicina, à arqueologia e até às regras militares romanas, Metherell tinha fechado todas as saídas: Jesus não poderia ter descido vivo da cruz. Contudo, eu o levei ainda um pouco mais longe.

— Existe alguma mínima possibilidade, uma mínima possibilidade, de Jesus ter sobrevivido a isso?

Metherell balançou a cabeça e apontou o dedo para mim enfaticamente.
— De jeito nenhum — ele disse. — Lembre que ele já estava em choque hipovolêmico da grande perda de sangue mesmo antes de a crucificação começar. Ele não poderia ter fraudado a morte, porque você não pode representar que não está respirando por muito tempo. Além disso, a lança enfiada em seu coração teria resolvido a questão de uma vez por todas. Os romanos também não estavam a fim de arriscar a própria vida deixando Jesus sair vivo dali.

— Então — arrematei — quando alguém lhe diz que o que aconteceu com Jesus não passou de um desmaio na cruz ...

— Eu lhe digo que isso é impossível. É uma teoria fantasiosa sem nenhuma base factual possível.
Eu ainda não estava pronto para encerrar a questão. Correndo o risco de deixar frustrado o doutor, disse:
— Vamos especular que o impossível tenha acontecido e que Jesus de algum jeito conseguiu sobreviver à crucificação. Digamos que ele conseguiu livrar-se dos panos em que estava enrolado, empurrar a grande pedra que foi colocada na entrada do seu túmulo e passar pelos soldados romanos que montavam guarda. Do ponto de vista médico, em que condição ele estaria quando foi encontrar seus discípulos?
Metherell não estava muito disposto a entrar na brincadeira.

— Repito — enfatizou — que não há nenhuma possibilidade de ele ter sobrevivido à cruz. Mas, se tivesse, como poderia andar se seus pés foram perfurados daquele jeito? Como poderia aparecer na estrada para Emaús, pouco depois, e andar uma longa distância? Como poderia usar seus braços depois que eles foram distendidos e deslocados nas juntas? Lembre-se de que ele também tinha grandes ferimentos nas costas e o peito furado pela lança.

Ele fez uma pausa. Algo estalou em sua mente, e agora ele estava pronto para fazer uma afirmação final que cravaria uma estaca definitiva na teoria do desmaio. Era um argumento que ninguém conseguiu refutar, desde que foi levantado pelo teólogo alemão David Strauss, em 1835.

— Ouça. Alguém de aparência tão destruída jamais teria inspirado seus discípulos a sair e proclamar que ele é o Senhor da vida, que triunfou sobre o túmulo. Você entende o que estou dizendo? Depois de sofrer maus-tratos tão terríveis, com a perda de sangue catastrófica e o trauma, sua aparência seria tão deplorável que os discípulos jamais o teriam proclamado como o vencedor da morte; teriam ficado com pena dele e tentado cuidar dele até que recuperasse a saúde. Por isso, é um despropósito pensar que, se Jesus lhes apareceu nesse estado horrível, seus seguidores teriam se sentido motivados a começar um movimento mundial baseado na esperança de que um dia teriam um corpo ressuscitado como o dele. Não há hipótese.

 Uma questão para o coração
De modo convincente e magistral, Metherell tinha defendido seu argumento sem deixar nenhuma dúvida razoável. Ele o fizera concentrando-se unicamente na questão "como". Como Jesus fora crucificado de maneira a garantir de forma absoluta sua morte? Mesmo assim, quando terminamos, senti que alguma coisa estava faltando. Eu extraíra dele seu conhecimento, mas não tocara em seu coração. Por isso, quando levantamos para apertar as mãos, senti-me levado a fazer a pergunta do "por quê", que se fazia necessária.

— Alex, antes que eu vá, deixe-me pedir sua opinião sobre algo. Não sua opinião de médico, não sua avaliação científica, somente algo do seu coração.
Senti que ele baixou um pouco a guarda.

— Está bem — ele assentiu. — Vamos tentar.
— Jesus caminhou intencionalmente para os braços do seu traidor, não resistiu à prisão, não se defendeu no seu julgamento; está claro que ele se submeteu voluntariamente ao que o senhor descreveu como uma forma humilhante e excruciante de tortura. Eu gostaria de saber por quê. O que poderia ter motivado alguém a concordar em padecer tal suplício?

Alexander Metherell, desta vez o homem, não o médico, procurou pelas palavras certas.

— Francamente, não creio que uma pessoa comum teria feito isso — ele finalmente disse. — Mas Jesus sabia o que estava por vir, e se dispôs a passar por isso, porque essa era a única maneira de nos redimir: servindo como nosso substituto e sofrendo a pena de morte que nós merecemos pela rebelião contra Deus. Esse foi o motivo de sua missão ao vir à terra.

Mesmo ao dizer isso, eu ainda podia sentir que a mente sempre racional, lógica e organizada de Metherell continuava a reduzir minha pergunta à mais básica e sólida resposta.

— Então, se você pergunta o que o motivou — ele concluiu, — bem... imagino que a resposta pode ser resumida numa só palavra: amor.



segunda-feira, 29 de agosto de 2011

discipulo radical - Jonh Stot.


Tivemos uma perda significativa neste ano: Jonh Stot. Conheci a literatura do Pastor Anglicano Jonh Stot em Pindamonhangaba, o livro era: a Cruz de Cristo. Foi minha primeira leitura de uma verdadeira "feijoada" teologica; até então, infelizmente, só tinha provado pequenos quitutes, sem profundidade teologica. Depois, li "o cristianismo básico", livro maravilhoso, aliás, o primeiro livro de Stot; depois, "Ouça o Espírito Ouça o Mundo"; depois, suas epístolas comentadas: 1 Timoteo, 2 Timoteo (um comentário maravilhoso), Atos dos Apostolos (li todinho), Comentario aos Romanos,etc. E, o seu ultimo livro: "o discipulo radical". Tenho explanado nos estudos de terça-feira esse livro com o rebanho que Deus, graciosamente colocou aos meus cuidados. Quero, portanto, compartilhar alguns esboços desses estudos:

O discípulo radical: inconformismo. Lucas 9:23-26.

 A igreja tem uma dupla responsabilidade em relação ao mundo ao seu redor. Por um lado, devemos viver, servir e testemunhar no mundo, Por outro lado, devemos evitar nos contaminar por ele. “Sejam santos”, Deus diz repetidamente ao seu povo, “porque eu sou santo” (Lv 11:45; 1 Pe 1 1 5-16).
 Esse tema fundamental se repete nas quatro principais seções da Biblia: a lei, os profetas, o ensino de Jesus e o ensino dos apóstolos. Primeiro na lei (Lv 18:3-4) e nos profetas (Ez 11:12); nos evangelhos (Mt 6:8) e nas epistolas (Rm 12:2). Aqui está o chamado de Deus para um discipulado radical, para um inconformismo radical à cultura circundante.
1) Tendencias contemporâneas.
1.1) Pluralismo. O pluralismo afirma que todo “ismo” tem seu valor e merece nosso respeito. Devemos afirmar a imparidade de Jesus e sua perfeição. Afirmar sua singularidade em sua encarnação; singular em sua encarnação; singular em sua expiação; singular em sua ressurreição. Jesus não é o grande – ele é o Único. Não existe ninguém como ele. Ele não tem rival nem sucessor.
1.2) Materialismo. Materialismo não é simplesmente uma aceitação da realidade do mundo material. Materialismo é uma preocupação com coisas materiais, que podem abafar a nossa vida espiritual. O apostolo nos impele a viver uma vida de simplicidade (Fl 4:11) e acrescenta que “grande fonte de lucro é a piedade com o contentamento” (1 Tm 6:6; Jó 1:21). Em outras palavras, a vida na terra é uma breve peregrinação entre dois momentos de nudez.
1.3) Relativismo ético. Todos os padrões que nos cercam estão se desfazendo. As pessoas se confundem diante da existência de quaisquer absolutos. O relativismo permeou a cultura e tem se infiltrado na igreja. Atualmente, a relação sexual fora do casamento é largamente praticada, dispensando o compromisso essencial com um casamento autentico. Além disso, relacionamentos entre pessoas do mesmo sexo são vistos como alternativas legitimas ao casamento heterossexual (Mt 19:4-6; Lc 6:45; Jo 14:21).
1.4) Narcisismo. Narciso, na mitologia grega, foi um jovem que viu seu reflexo em um lago, apaixonou-se por sua própria imagem, caiu dentro d´agua e se afogou. Assim, “narcisismo” é um amor excessivo, uma admiração desmedida por si mesmo. Esse movimento nos ensina a olhar para dentro de nós mesmos e nos explorar, pois a solução para os problemas está em nosso interior.
CONCLUSÃO: não devemos ser caniços agitados pelo vento, dobrando-nos diante das rajadas da opinião publica; mas tão inabaláveis quanto pedras em uma correnteza. Não devemos ser como peixes que flutuam na corrente do rio; devemos nadar contra ela, contra a tendência cultural. Não devemos ser como camaleões, que mudam de cor de acordo com o ambiente; devemos nos opor de forma visível ao ambiente em que estamos.


segunda-feira, 27 de junho de 2011

a unidade que está nos destruindo. A W. Tozer


A Unidade que está nos Destruindo – A. W. Tozer



Quando unir-se e quando dividir-se, eis a questão, e uma resposta abalizada exige a sabedoria de um Salomão.

Alguns resolvem o problema de maneira simples e prática: Toda união é boa e toda divisão é má. Muito fácil. Mas esta maneira simplista de tratar do assunto ignora as lições de história e se esquece das profundas leis espirituais que regem a vida do homem.

Se os homens bons desejassem a união e os maus a divisão. ou vice-versa, isso simplificaria as coisas para nós. Ou se pudesse ser mostrado que Deus sempre une e o diabo sempre divide, seria fácil encontrar nosso caminho neste mundo confuso. Mas as coisas não são assim.

Dividir o que deve ser dividido e unir o que deve ser unido faz parte da sabedoria. A união de elementos heterogêneos jamais é boa mesmo que possível, nem a divisão arbitrária de elementos semelhantes. Isto se aplica certamente tanto às coisas morais e religiosas, como às políticas e científicas.

Deus foi quem fez a primeira divisão, quando separou a luz das trevas no momento da criação. Esta divisão estabeleceu a regra para todo o comportamento divino na natureza e na graça. A luz e as trevas são incompatíveis. Tentar ter ambas no mesmo lugar ao mesmo tempo é tentar o impossível e o resultado será sempre nulo, nem uma nem outra, mas obscuridade e escuridão.

No mundo dos homens, atualmente são poucos os contornos que se destacam. A raça acha-se decaída. O pecado trouxe confusão. O trigo cresce junto com o joio, as ovelhas e os cabritos coexistem, as terras dos justos e injustos ficam lado a lado na paisagem, a missão tem o bordel como vizinho.

As coisas, porém, não serão sempre assim. Está chegando a hora em que as ovelhas serão separadas dos cabritos, o joio do trigo. Deus dividirá novamente a luz das trevas e todas as coisas se agruparão segundo a sua espécie, O joio irá para o fogo junto com o joio, e o trigo para o celeiro com o trigo. A névoa se levantará como acontece com a neblina e todos os contornos surgirão nítidos. O inferno será sempre reconhecido como inferno e o céu irá revelar-se como o lar de todos os que possuem a natureza do Deus único.

Aguardamos com paciência essa hora. Enquanto isso, para cada um de nós e para a igreja onde quer que apareça na sociedade humana, a pergunta repetida deve ser: Com o que devemos unir-nos e do que separar-nos? A questão de coexistência não existe aqui. O trigo cresce no mesmo campo com o joio, mas deve haver polinização mútua entre eles? As ovelhas pastam junto aos cabritos, mas devem procurar cruzamento entre as espécies? Os injustos e os justos gozam da mesma chuva e do mesmo sol, mas devem esquecer suas profundas diferenças morais e casar-se?

A resposta popular a estas perguntas é afirmativa. Unir-se sempre e os homens serão irmãos apesar de tudo. A unidade é tão preciosa que preço algum é demasiado para alcançá-la e nada é suficientemente importante para manter-nos separados. A verdade é sufocada para celebrar a festa de casamento do céu e do inferno, e tudo isso a fim de apoiar um conceito de unidade que não se baseia na Palavra de Deus.

A igreja iluminada pelo Espírito não aceita isso. Num mundo caído como o nosso a unidade não é um tesouro que deva ser comprado ao preço da transigência. A lealdade a Deus, a fidelidade à verdade e à preservação de uma boa consciência são jóias mais preciosas do que o ouro de Ofir ou os diamantes extraídos da mina. Por causa dessas jóias homens sofreram a perda de propriedades, a prisão e até a morte; por elas, mesmo em épocas recentes, por trás das várias cortinas, os seguidores de Cristo pagaram até o último centavo o preço de sua devoção e morreram silenciosamente, desconhecidos e não aplaudidos pelo grande mundo, mas conhecidos de Deus e caros ao seu coração paterno. No dia em que forem declarados os segredos de todas as almas, eles irão apresentar-se para receber as obras feitas no corpo. Esses são certamente filósofos mais sábios do que os seguidores religiosos da unidade sem significado, que não possuem coragem suficiente para colocar-se contra as modas correntes e que clamam por irmandade só porque tal coisa acha-se no momento em foco.

"Divida e conquiste" é o refrão cínico dos líderes políticos maquiavélicos, mas Satanás sabe também como unir e conquistar. A fim de colocar uma nação de joelhos o ditador em potencial precisa primeiro uni-la. Através de apelos repetidos ao orgulho nacional ou à necessidade de vingar-se de alguma injustiça passada ou presente, o demagogo consegue unir a população à sua volta. Depois disso é fácil dominar os militares e submeter o legislativo. Segue-se então, na verdade, uma unidade quase perfeita, mas trata-se da unidade do curral ou do campo de concentração. Vimos isto acontecer várias vezes neste século, e o mundo irá vê-la uma vez mais quando as nações da terra se unirem sob o Anticristo.

Quando as ovelhas confusas começam a cair num despenhadeiro, a ovelha que quiser salvar-se individualmente precisa separar-se do rebanho. A unidade perfeita em tal momento só pode significar destruição total para todos. A ovelha sábia, para salvar sua própria pele, se afasta.

O poder se encontra na união de coisas homogêneas e na divisão das heterogêneas. Talvez aquilo que precisamos nos círculos religiosos de hoje não seja mais união, mas uma certa divisão sábia e corajosa. Todos desejam a paz, mas pode ser que o reavivamento use a espada.

domingo, 12 de junho de 2011

avivamentos - semente do pentecostalismo no Brasil.

OS AVIVAMENTOS.
A principal matriz do protestantismo norte-americano foi o puritanismo. Os puritanos, que estavam entre os primeiros colonizadores dos futuros Estados Unidos, chegaram à Nova Inglaterra a partir de 1620, estabelecendo-se inicialmente em Massachusetts e, depois, em Connecticut. Esses puritanos calvinistas, que eventualmente criaram a Igreja Congregacional, davam muito ênfase à experiência de conversão. Somente tornavam-se membros plenos das igrejas aqueles que podiam dar um testemunho público e crível da conversão. Asssim, em sua fase inicial o puritanismo foi marcado por uma grande intensidade religiosa, uma espécie de contínuo avivamento. Essa característica do puritanismo haveria de influenciar fortemente as diferentes manifestações do protestantismo norte – americano.
O auge do despertamento ocorreu na Nova Inglaterra, que há décadas vinha orando por essa visitação. Dois nomes ficaram permanentemente ligados ao evento. O primeiro é o de Jonathan Edwards (1703-1758), jovem pastor da Igreja Congregacional de Northampton, em Massachusetts. Outro importante personagem associado ao Primeiro Grande Despertamento foi pregador inglês George Whitefield (1714-1770), que em 1740 fez uma memorável turnê evangelística através de várias colônias, encerrando-a na Nova Inglaterra.. Whitefield, um calvinista convicto que inicialmente havia trabalhado com John Wesley, pregou quase todos os dias a auditórios que chegavam a 8 mil pessoas. Essa campanha produziu um enorme impacto em todas as colônias, tornando-se o primeiro evento de amplitude “nacional” da história dos Estados Unidos.
Passado o período da emancipação política (1776), irrompeu um novo avivamento, que veio a ser muito mais duradouro e influente que o anterior. O Segundo Grande Despertamento começou por volta de 1800, novamente entre os presbiterianos, na localidade de Cane Ridge, em Kentucky. Além do mais vasto e complexo, esse despertamento diferiu do primeiro em outros aspectos importantes. Enquanto o avivamento anterior limitou-se essencialmente aos presbiterianos e congregacionais, este atingiu todas as denominações, especialmente os batistas e os metodistas, que tiveram um crescimento vertiginoso e tornaram-se os maiores grupos protestantes da América do Norte. Outra diferença foi a geográfica e social: enquanto o primeiro despertamento ocorreu em áreas urbanas próxima ao litoral, o segundo irrompeu na chamada “fronteira”, a região rural do meio-oeste com sua população móvel e sua instável organização social. Uma terceira diferença entre os dois avivamentos diz respeito à sua teologia. Enquanto o movimento do século XVII teve uma base solidamente calvinista, com sua ênfase na incapacidade humana e na iniciativa soberana de Deus, o Segundo Despertamento revelou um orientação nitidamente arminiana, dando grande destaque ao potencial da escolha e decisão do ser humano. Essa característica, que combinava com os ideais de liberdade e iniciativa individual da jovem nação, encontrou sua expressão mais eloqüente no avivalista Charles G. Finney (1792-1875). Finney acreditava que o avivamento poderia ser produzido pelo uso de técnicas que incluíam apelos insistentes e carregados de emoção, aconselhamento pessoal dos decididos e séries prolongadas de reuniões evangelísticas.
As campanhas de avivamento, pretendiam, através da emoção, da ameaça do inferno, provocar a decisão da pessoa por Cristo. Nos cânticos, nas orações, se buscavam um clima de emocionalismo que levasse o individuo a sentir a presença de Deus convidando-o insistemente a tomar a sua decisão. Portanto, há muita semelhança entre os avivamentos e o movimento pentecostal. Este último, partindo de uma busca de avivamento, chega ao batismo no Espírito Santo, ao falar em línguas, ao dom de curas, profecias, etc. Para as Igrejas Históricas, que tinham com prática os avivamentos essas práticas pentecostais eram consideradas demasiadas, provocando a perda da ordem, do equilíbrio, e portanto eram conseqüentemente rejeitadas. Essa é a causa doutrinária que motivou a separação do movimento pentecostal e o surgimento de suas igrejas.
É importante notar que “no Brasil, os verdadeiros herdeiros do reavivamento tradicional norte-americano são os pentecostais que mantiveram a ênfase no emocionalismo e a disposição de intinerância evangélica”.

sábado, 4 de junho de 2011

elucubrações da vida!

É a primeira que estou escrevendo subjetivamente neste blog. Tenho lançado alguns insights no objetivo de compartilhar conhecimentos nessa rede mundial de computadores. Antes, tenho que confessar: sou leigo na frente de um computador! Todavia, quero escrever algo subjetivamente nesse blog, quero... Mas o que? Não sei! Poderia falar de mim, da minha esposa amada ou das minhas filhas! Ou, talvez da vida minha vida pastoral...Bom o que eu sei sobre mim? Se dependesse de mim, não saberia nada. Sei algo sobre a minha pessoa, porque Alguém me disse quem eu era! Até então, vivia desorientado, desnorteado, sem rumo...como disse Jean Paul Satre, em naúsea: "como um meteorito jogado no espaço, sem rumo". Quem me desnudou? IAWEH! Sim: "Eu sou". Essa expressão diretamento do hebraico, seria:"eu serei o que serei". Em outras palavras, AQUELE QUE É! Somente Ele para dizer sobre mim. Agora sei quem sou eu! Quem sou eu? Meu nome por enquanto é João Vicente Pereira, nasci em Jaboticabal SP, mas residi um bom tempo da minha vida na cidade de Pirangi; cidadezinha pacata onde tive uma infancia maravilhosa, minha mãe ainda reside em Pirangi, minhas irmãs: Daniela (caçula) e Maria (mais velha que eu); depois mudei-me para Ribeirão Preto (1990) e fui morar com o meu irmão mais velho José Vicente e sua esposa Eliane Maria Lucena e seus filhos: Mateus (arteiro), Michele (minha moreninha), Milene (branquinha) e Daniel (sossegado); foram anos maravilhosos, de crescimento, novas amizades, maturidade e também o melhor fato que aconteceu na minha vida: conversão, conheci Jesus Cristo. É justamente aqui que volto ao inicio de tudo: quem sou eu? Depois da minha conversão, encontrei-me! Sou filho, não mais criatura; fui lavado, meus pecados foram perdoados; fui santificado, era de Deus agora; Justificado, Jesus morreu na cruz pelos meus pecados, embora não merecesse. Hoje sei que sou eu: salvo em Cristo Jesus, vivendo a vida de Cristo em mim, com minha familia e indo em direção ao céu...

quinta-feira, 2 de junho de 2011

a linha Magica - William J. Benett

A Linha Mágica


"Era uma vez uma viúva que tinha um filho chamado Pedro. O menino era forte e são, mas não gostava de ir à escola e passava o tempo todo sonhando acordado.

- Pedro, com o que você está sonhando a uma hora destas? - perguntava-lhe a professora.

- Estava pensando no que serei quando crescer - respondia ele.

- Seja paciente. Há muito tempo para pensar nisso. Depois de crescido, nem tudo é divertimento, sabe? - dizia ela.

Mas Pedro tinha dificuldades para apreciar qualquer coisa que estivesse fazendo no momento, e ansiava sempre pela próxima. No inverno, ansiava pelo retorno do verão; e no verão, sonhava com passeios de esqui e trenó, e com as fogueiras acesas durante o inverno. Na escola, ansiava pelo fim do dia, quando poderia voltar para casa; e nas noites de domingo, suspirava dizendo: "Se as férias chegassem logo!" O que mais o entretinha era brincar com a amiga Lise. Era companheira tão boa quanto qualquer menino, e a ansiedade de Pedro não a afetava, ela não se ofendia. "Quando crescer, vou casar-me com ela", dizia Pedro consigo mesmo.

Costumava perder-se em caminhadas pela floresta, sonhando com o futuro. Ás vezes, deitava-se ao sol sobre o chão macio, com as mãos postas sob a cabeça, e ficava olhando o céu através das copas altas das árvores. Uma tarde quente, quando estava quase caindo no sono, ouviu alguém chamando por ele. Abriu os olhos e sentou-se. Viu uma mulher idosa em pé à sua frente. Ela trazia na mão uma bola prateada, da qual pendia uma linha de seda dourada.

- Olhe o que tenho aqui, Pedro - disse ela, oferecendo-lhe o objeto.

- O que é isso? - perguntou, curioso, tocando a fina linha dourada.

- É a linha da sua vida - retrucou a mulher. - Não toque nela e o tempo passará normalmente. Mas se desejar que o tempo ande mais rápido, basta dar um leve puxão na linha e uma hora passará como se fosse um segundo. Mas devo avisá-lo: uma vez que a linha tenha sido puxada, não poderá ser colocada de volta dentro da bola. Ela desaparecerá como uma nuvem de fumaça. A bola é sua. Mas se aceitar meu presente, não conte para ninguém; senão, morrerá no mesmo dia. Agora diga, quer ficar com ela?

Pedro tomou-lhe das mãos o presente, satisfeito. Era exatamente o que queria. Examinou-a. Era leve e sólida, feita de uma peça só. Havia apenas um furo de onde saía a linha brilhante. O menino colocou-a no bolso e foi correndo para casa. Lá chegando, depois de certificar-se da ausência da mãe, examinou-a outra vez. A linha parecia sair lentamente de dentro da bola, tão devagar que era difícil perceber o movimento a olho nu. Sentiu vontade de dar-lhe um rápido puxão, mas não teve coragem. Ainda não.

No dia seguinte na escola, Pedro imaginava o que fazer com sua linha mágica. A professora o repreendeu por não se concentrar nos deveres. "Se ao menos", pensou ele, "fosse a hora de ir para casa!" Tateou a bola prateada no bolso. Se desse apenas um pequeno puxão, logo o dia chegaria ao fim. Cuidadosamente, pegou a linha e puxou. De repente, a professora mandou que todos arrumassem suas coisas e fossem embora, organizadamente. Pedro ficou maravilhado. Correu sem parar até chegar em casa. Como a vida seria fácil agora! Todos seus problemas haviam terminado. Dali em diante, passou a puxar a linha, só um pouco, todos os dias.

Entretanto, logo apercebeu-se que era tolice puxar a linha apenas um pouco todos os dias. Se desse um puxão mais forte, o período escolar estaria concluído de uma vez. Ora, poderia aprender uma profissão e casar-se com Lise. Naquela noite, então, deu um forte puxão na linha, e acordou na manhã seguinte como aprendiz de um carpinteiro da cidade. Pedro adorou sua nova vida, subindo em telhados e andaimes, erguendo e colocando a marteladas enormes vigas que ainda exalavam o perfume da floresta. Mas às vezes, quando o dia do pagamento demorava a chegar, dava um pequeno puxão na linha e logo a semana terminava, já era a noite de sexta-feira e ele tinha dinheiro no bolso.

Lise também mudara-se para a cidade e morava com a tia, que lhe ensinava os afazeres do lar. Pedro começou a ficar impaciente acerca do dia em que se casariam. Era difícil viver tão perto e tão longe dela, ao mesmo tempo. Perguntou-lhe, então, quando poderiam se casar.

- No próximo ano - disse ela. - Eu já terei aprendido a ser uma boa esposa.

Pedro tocou com os dedos a bola prateada no bolso.

- Ora, o tempo vai passar bem rápido - disse, com muita certeza.

Naquela noite, não conseguiu dormir. Passou o tempo todo agitado, virando de um lado para outro na cama. Tirou a bola mágica que estava debaixo do travesseiro. Hesitou um instante; logo a impaciência o dominou, e ele puxou a linha dourada. Pela manhã, descobriu que o ano já havia passado e que Lise concordara afinal com o casamento. Pedro sentiu-se realmente feliz.

Mas antes que o casamento pudesse realizar-se, recebeu uma carta com aspecto de documento oficial. Abriu-a, trêmulo, e leu a noticia de que deveria apresentar-se ao quartel do exército na semana seguinte para servir por dois anos. Mostrou-a, desesperado, para Lise.

- Ora - disse ela -, não há o que temer, basta-nos esperar. Mas o tempo passará rápido, você vai ver. Há tanto o que preparar para nossa vida a dois!

Pedro sorriu com galhardia, mas sabia que dois anos durariam uma eternidade para passar.

Quando já se acostumara à vida no quartel, entretanto, começou a achar que não era tão ruim assim. Gostava de estar com os outros rapazes, e as tarefas não eram tão árduas a princípio. Lembrou-se da mulher aconselhando-o a usar a linha mágica com sabedoria e evitou usá-la por algum tempo. Mas logo tornou a sentir-se irrequieto. A vida no exército o entediava com tarefas de rotina e rígida disciplina. Começou a puxar a linha para acelerar o andamento da semana a fim de que chegasse logo o domingo, ou o dia da sua folga. E assim se passaram os dois anos, como se fosse um sonho.

Terminado o serviço militar, Pedro decidiu não mais puxar a linha, exceto por uma necessidade absoluta. Afinal, era a melhor época da sua vida, conforme todos lhe diziam. Não queria que acabasse tão rápido assim. Mas ele deu um ou dois pequenos puxões na linha, só para antecipar um pouco o dia do casamento. Tinha muita vontade de contar para Lise seu segredo; mas sabia que se contasse, morreria.

No dia do casamento, todos estavam felizes, inclusive Pedro. Ele mal podia esperar para mostrar-lhe a casa que construíra para ela. Durante a festa, lançou um rápido olhar para a mãe. Percebeu, pela primeira vez, que o cabelo dela estava ficando grisalho. Envelhecera rapidamente. Pedro sentiu uma pontada de culpa por ter puxado a linha com tanta freqüência. Dali em diante, seria muito mais parcimonioso com seu uso, e sé a puxaria se fosse estritamente necessário.

Alguns meses mais tarde, Lise anunciou que estava esperando um filho. Pedro ficou entusiasmadíssimo, e mal podia esperar. Quando o bebê nasceu, ele achou que não iria querer mais nada na vida. Mas sempre que o bebê adoecia ou passava uma noite em claro chorando, ele puxava a linha um pouquinho para que o bebê tornasse a ficar saudável e alegre.

Os tempos andavam difíceis. Os negócios iam mal e chegara ao poder um governo que mantinha o povo sob forte arrocho e pesados impostos, e não tolerava oposição. Quem quer que fosse tido como agitador era preso sem julgamento, e um simples boato bastava para se condenar um homem. Pedro sempre fora conhecido por dizer o que pensava, e logo foi preso e jogado numa cadeia. Por sorte, trazia a bola mágica consigo e deu um forte puxão na linha. As paredes da prisão se dissolveram diante dos seus olhos e os inimigos foram arremessados à distância numa enorme explosão. Era a guerra que se insinuava, mas que logo acabou, como uma tempestade de verão, deixando o rastro de uma paz exaurida. Pedro viu-se de volta ao lar com a família. Mas era agora um homem de meia-idade.

Durante algum tempo, a vida correu sem percalços, e Pedro sentia-se relativamente satisfeito. Um dia, olhou para a bola mágica e surpreendeu-se ao ver que a linha passara da cor dourada para a prateada. Foi olhar-se no espelho. Seu cabelo começava a ficar grisalho e seu rosto apresentava rugas onde nem se podia imaginá-las. Sentiu um medo súbito e decidiu usar a linha com mais cuidado ainda do que antes. Lise dera-lhe outros filhos e ele parecia feliz como chefe da família que crescia. Seu modo imponente de ser fazia as pessoas pensarem que ele era algum tipo de déspota benevolente. Possuía um ar de autoridade como se tivesse nas mãos o destino de todos. Mantinha a bola mágica bem escondida, resguardada dos olhos curiosos dos filhos, sabendo que se alguém a descobrisse, seria fatal.

Cada vez tinha mais filhos, de modo que a casa foi ficando muito cheia de gente. Precisava ampliá-la, mas não contava com o dinheiro necessário para a obra. Tinha outras preocupações, também. A mãe estava ficando idosa e parecia mais cansada com o passar dos dias. Não adiantava puxar a linha da bola mágica, pois isto sé aceleraria a chegada da morte para ela. De repente, ela faleceu, e Pedro, parado diante do túmulo, pensou como a vida passara tão rápido, mesmo sem fazer uso da linha mágica.

Uma noite, deitado na cama, sem conseguir dormir, pensando nas suas preocupações, achou que a vida seria bem melhor se todos os filhos já estivessem crescidos e com carreiras encaminhadas. Deu um fortíssimo puxão na linha, e acordou no dia seguinte vendo que os filhos já não estavam mais em casa, pois tinham arranjado empregos em diferentes cantos do país, e que ele e a mulher estavam sós. Seu cabelo estava quase todo branco e doíam-lhe as costas e as pernas quando subia uma escada ou os braços quando levantava uma viga mais pesada. Lise também envelhecera, e estava quase sempre doente. Ele não agüentava vê-la sofrer, de tal forma que lançava mão da linha mágica cada vez mais freqüentemente. Mas bastava ser resolvido um problema, e já outro surgia em seu lugar. Pensou que talvez a vida melhorasse se ele se aposentasse. Assim, não teria que continuar subindo nos edifícios em obras, sujeito a lufadas de vento, e poderia cuidar de Lise sempre que ela adoecesse. O problema era a falta de dinheiro suficiente para sobreviver. Pegou a bola mágica, então, e ficou olhando. Para seu espanto viu que a linha não era mais prateada, mas cinza, e perdera o brilho. Decidiu ir para a floresta dar um passeio e pensar melhor em tudo aquilo.

Já fazia muito tempo que não ia àquela parte da floresta. Os pequenos arbustos haviam crescido, transformando-se em árvores frondosas, e foi difícil encontrar o caminho que costumava percorrer. Acabou chegando a um banco no meio de uma clareira. Sentou-se para descansar e caiu em sono leve. Foi despertado por uma voz que chamava-o pelo nome: "Pedro! Pedro!"

Abriu os olhos e viu a mulher que encontrara havia tantos anos e que lhe dera a bola prateada com a linha dourada mágica. Aparentava a mesma idade que tinha no dia em questão, exatamente igual. Ela sorriu para ele.

- E então, Pedro, sua vida foi boa? - perguntou.

- Não estou bem certo - disse ele. - Sua bola mágica é maravilhosa. Jamais tive que suportar qualquer sofrimento ou esperar por qualquer coisa em minha vida. Mas tudo foi tão rápido. Sinto como se não tivesse tido tempo de apreender tudo que se passou comigo; nem as coisas boas, nem as ruins. E agora falta tão pouco tempo! Não ouso mais puxar a linha, pois isto só anteciparia minha morte. Acho que seu presente não me trouxe sorte.

- Mas que falta de gratidão! - disse a mulher. - Como você gostaria que as coisas fossem diferentes?

- Talvez se você tivesse me dado uma outra bola, que eu pudesse puxar a linha para fora e para dentro também. Talvez, então, eu pudesse reviver as coisas ruins.

A mulher riu-se. - Está pedindo muito! Você acha que Deus nos permite viver nossas vidas mais de uma vez? Mas posso conceder-lhe um último desejo, seu tolo exigente.

- Qual? - perguntou ele.

- Escolha - disse ela. Pedro pensou bastante. Depois de um bom tempo, disse: - Eu gostaria de tornar a viver minha vida, como se fosse a primeira vez, mas sem sua bola mágica. Assim poderei experimentar as coisas ruins da mesma forma que as boas sem encurtar sua duração, e pelo menos minha vida não passará tão rápido e não perderá o sentido como um devaneio.

- Assim seja - disse a mulher. - Devolva-me a bola. Ela esticou a mão e Pedro entregou-lhe a bola prateada. Em seguida, ele se recostou e fechou os olhos, exausto.

Quando acordou, estava na cama. Sua jovem mãe se debruçava sobre ele, tentando acordá-lo carinhosamente.

- Acorde, Pedro. Não vá chegar atrasado na escola. Você estava dormindo como uma pedra!

Ele olhou para ela, surpreso e aliviado.

Tive um sonho horrível, mãe. Sonhei que estava velho e doente e que minha vida passara como num piscar de olhos sem que eu sequer tivesse algo para contar. Nem ao menos algumas lembranças.

A mãe riu-se e fez que não com a cabeça.

Isso nunca vai acontecer disse ela. As lembranças são algo que todos temos, mesmo quando velhos. Agora, ande logo, vá se vestir. A Lise está esperando por você, não deixe que se atrase por sua causa.

A caminho da escola em companhia da amiga, ele observou que estavam em pleno verão e que fazia uma linda manhã, uma daquelas em que era ótimo estar vivendo. Em poucos minutos, estariam encontrando os amigos e colegas, e mesmo a perspectiva de enfrentar algumas aulas não parecia tão ruim assim. Na verdade, ele mal podia esperar."

Do Livro: O LIVRO DAS VIRTUDES

quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

Pinóquio e o campo dos milagres

Pinóquio e o campo dos milagres: país das antas.


 Uma estória infantil carregada de significados. Principalmente nos dias hodiernos em que espertalhões midiáticos enredam os ingênuos com sua teologia da prosperidade.


Chegamos ao capítulo XII. Comefogo, o dono de um teatrinho de bonecos, dá de presente cinco moedas de ouro para Pinóquio para que ele as leve para Gepeto, seu pai; e Pinóquio em vez disso, deixa-se enrolar pela Raposa e pelo Gato e vai embora com eles.


No dia seguinte, Comefogo chamou Pinóquio de lado e perguntou:


-Qual é o nome do seu pai?


-Gepeto.


-E o que ele faz?


-É um pobre.


-Ele ganha muito?


-Ele ganha tanto quanto é preciso para não ter nunca um centavo sequer no bolso. Imagine que para comprar minha Cartilha da escola teve que vender a única jaqueta que vestia, uma jaqueta que, entre consertos e remendos, estava caindo aos pedaços.

-Pobre sujeito! Me dá até dó! Eis aqui cinco moedas de ouro. Leve-as logo para ele e mande lembranças de minha parte.


Pinóquio, com é fácil imaginar, agradeceu mil vezes o patrão, abraçou, um por um, todos bonecos da Companhia, até os guardas, e, delirando de felicidade, seguiu viagem para voltar para casa.

Mas não tinha andado nem meio quilômetro ainda quando encontrou pelo caminho uma Raposa manca de uma pata e um Gato cego dos dois olhos, que iam andando devagarinho, ajudando-se um ao outro, como bons companheiros de infortúnio. A Raposa, que era manca, caminhava apoiando-se no Gato, e o Gato, que era cego, deixava-se guiar pela Raposa.

-Bom dia, Pinóquio – disse a Raposa, cumprimentando-o educadamente.


-Como é que você sabe meu nome? - perguntou o boneco.


-Eu conheço bem o seu pai.


-Onde você o viu?


-Eu o vi ontem na soleira da porta da casa dele.


-E o que ele estava fazendo?


-Ele estava só de camisa e estava tremendo de frio.


-Pobre papai! Mas, se Deus quiser, de hoje em diante ele não vai mais tremer!...


-Por quê?


-Porque eu me tornei um rico senhor.


-Você, um rico senhor? - disse a Raposa, e começou a rir com uma risada desengonçada e zombeteira; e o Gato também ria, mas, para disfarçar, penteava os bigodes com as patas da frente.


-Não tem graça nenhuma – gritou Pinóquio ofendido. - Sinto muito se vou deixar vocês com água na boca, mas estas aqui, se é que vocês entendem isso, são cinco belíssimas moedas de ouro. E tirou do bolso as moedas que Comefogo lhe dera de presente.


Ao som agradável daquelas moedas, a Raposa, por um impulso involuntário, espichou a pata que parecia encolhida e o Gato esbugalhou todos os dois olhos, que pareceram duas lanternas verdes, mas logo depois voltou a fechá-los, tanto é que Pinóquio não percebeu nada.


-E agora – perguntou a Raposa -, o que você vai querer fazer com essas moedas?


-Antes de mais nada – respondeu o boneco -, quero comprar para o meu pai uma bela jaqueta nova, toda de ouro e prata e com os botões de brilhantes, e depois quero ir para a escola e começar a estudar para valer.


-Olhe só para mim! - disse a Raposa. - Por causa da minha paixão tola pelo estudo, perdi uma perna.


-Olha só para mim! - disse o Gato. - Por causa da minha paixão tola pelo estudo fiquei cego dos dois olhos.

Enquanto isso, um Melro branco que estava empoleirado sobre a cerca à beira da estrada cantou como de costume e disse:

-Pinóquio, não dê ouvidos aos conselhos de más companhias, senão você vai arrepender-se!

Pobre Melro, teria sido melhor se não tivesse feito isso! O Gato, dando um grande salto, atirou-se em cima dele e, sem lhe dar nem ao menos tempo de dizer Ai, devorou-o de um só bocado, com as penas e tudo.

Depois de comê-lo e de limpar a boca, fechou novamente os olhos e voltou a se fazer de cego como antes.

-Pobre Melro – disse Pinóquio ao Gato -, por que você o tratou tão mal?

-Fiz isso para lhe dar uma lição. Assim, da próxima vez, ele vai aprender a não se meter nas conversas dos outros.

Já tinham andado mais da metade do caminho quando a Raposa, parando de supetão, disse para o boneco:

-Você quer dobrar as sua moedas de ouro?


-Como assim?


-Você quer que essas cinco miseráveis moedas de ouro virem cem, mil, dua mil?


-Pudera! De que jeito?


-De um jeito muito fácil. Em vez de voltar para casa, você deveria vir conosco.


-E aonde vocês querem levar-me?


-Ao País das Antas.


-Pinóquio pensou um pouco, depois disse com determinação:

-Não, não quero ir. Agora já estou perto de casa e quero ir para casa, onde meu pai está esperando-me. Quem sabe, pobre velho, como ficou ansioso ontem quando não me viu voltar. Infelizmente fui um mau menino, e o Grilo-falante tinha razão quando dizia: “Os meninos desobedientes não conseguem nada de bom neste mundo”. E eu aprendi isso às minhas custas, porque muitas desgraças me aconteceram, e ontem à noite, na casa de Comefogo, corri perigo...Brrr! Me dá um arrepio só de pensar!


-Então – disse a Raposa -, você quer mesmo ir para casa? Então vá, e pior para você.

-Pior para você! - repetiu o Gato.


-Pensei bem, Pinóquio, porque você está virando as costas para a sorte.


-Para a sorte! - repetiu o Gato.


-As suas cinco moedas de ouro de hoje para amanhã teriam virado duas mil.


-Duas mil – repetiu o Gato.


-Mas como é possível que virem tantas assim? - perguntou Pinóquio, ficando de boca aberta de tão estupefato.


-Já vou explicar para você – disse a Raposa. - É preciso saber que no país das Antas tem um campo abençoado que todos chamam de Campo dos Milagres. Você cava neste campo um pequeno buraco e coloca dentro dele, por exemplo, uma moeda de ouro. Depois você cobre o buraco com um pouco de terra, rega-o com dois baldes de água de chafariz, joga por cima um punhado de sal, e, no fim da tarde, você vai sossegado para a cama. Enquanto isso, durante a noite, a moeda de ouro brota e dá flor e, na manhã seguinte, ao levantar, você volta para o campo e o que você encontra? Encontra uma bela árvore carregada de tantas moedas de ouro quantos são os grãos de trigo de uma bela espiga no mês de junho.


-Então vejamos – disse Pinóquio cada vez mais atônito -, se eu enterrasse naquele campo as minhas cinco moedas de ouro, na manhã seguinte quantas moedas de ouro eu encontraria?


-É uma conta facílima – respondeu a Raposa -, uma conta que você pode fazer na ponta dos dedos. Suponhamos que cada moeda dê um cacho de quinhentas moedas; faça quinhentas vezes cinco e na manhã seguinte você vai encontrar no seu bolso duas mil e quinhentas moedas ouro brilhando e tinindo.


-Oh, que bom! - gritou Pinóquio, dançando de alegria. - Assim que eu tiver colhido essas moedas de ouro, vou ficar com duas mil para mim e vou dar as outras quinhentas de presente para vocês dois.


-Um presente para nós? - Gritou a Raposa indignando-se e dizendo-se ofendida. - Deus me livre!


-Me livre! - repetiu o Gato.


-Nós – prosseguiu a Raposa – não trabalhamos por interesses mesquinhos, nós trabalhamos unicamente para enriquecer os outros.


-Os outros! - repetiu o Gato.


-Que pessoas de bem! - pensou Pinóquio consigo. E, esquecendo-se na mesma hora do seu pai, da jaqueta nova, da Cartilha e de todas as suas boas intenções, disse para a Raposa e para o Gato:


-Vamos logo. Eu vou com vocês!